quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Avatar José Renato

Portal

 

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Sou uma pessoa cética, especialmente quando se trata de coisas muito bem recebidas pelo público. Eu pessoalmente penso que "popularidade é inversamente proporcional a qualidade". E quando algo é muito bem recebido, é porquê alguma coisa errada tem. Existem exceções, mas tenho motivos pra acreditar nisso. É só você entrar numa roda de amigos na faculdade e todos eles dizerem que o novo Fúria de Titãs (Clash of the Titans) é bom.

Não é diferente com os games. Lembro-me claramente de quando Halo: Combat Evolved saiu para PC e fui jogá-lo, tendo em mente que milhares de pessoas acham que ele é a Segunda vinda de Cristo. E que experiência torturante tive. Agora aponto para Halo quando me perguntam qual é minha definição de FPS ruim. Existem outros games que não suporto e não entendo porquê tanta gente gosta, como Metal Gear Solid, mas não é o propósito dessa resenha falarmos sobre estes.

 

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Imagine então minha surpresa em 2007, quando a Valve lançou uma compilação de games chamada The Orange Box. Claro que a série Half-Life é uma das exceções do espectro "popularidade/qualidade", já que não conheço um ser na Terra que não goste de Half-Life, mas o que me surpreendeu foi que o game mais bem recebido de uma compilação que contém Half-Life 2 e suas duas expansões episódicas foi um pequeno joguinho de quebra-cabeças. E me surpreendeu também que este pequeno joguinho merece toda a recepção calorosa que teve.

HISTÓRIA

Você abre os olhos. Está deitado em uma cama num lugar estranhamente limpo e estranho, como um laboratório. Perto de você, há uma pequena cômoda com um rádio e um copo. Por volta de 10 segundos depois, uma voz eletrônica feminina começa a falar com você e te dar as boas vindas ao Centro de Enriquecimento da Aperture Science. Logo, uma pequena bolha azul se abre na única parede de cimento do pequeno quartinho onde você estava trancado. Saindo dele, você terá que enfrentar 19 salas de teste resolvendo variados quebra-cabeças usando estes "portais". Essa é a simples premissa de Portal.

Para melhor apresentação, Portal também utiliza o mesmo recurso da série Half-Life, ou seja, nunca sai da perspectiva da personagem principal, cujas origens e motivações são totalmente desconhecidas, e só sabemos que ela é mulher porquê é possível vê-la olhando por entre portais quando estes estão próximos. E essa escolha de apresentação torna a simples história mais interessante ainda, pois o jogo começa e termina sem nenhum tipo de explicação. Por que você está neste lugar? Por que todos os testes com portais? O que é este lugar afinal? O jogo nunca cai na armadilha de tentar explicar nada disso, e por isso funciona tão bem. Ao jogar Portal, me sinto dentro de um pequeno conto de no máximo três páginas, escritas por algum escritor independente, e isso é algo que quase nunca acontece num game.

 

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As poucas explicações que aparecem são vagas, como à partir de um certo ponto no jogo no qual vemos pichações no chão e paredes por trás de algumas salas de teste, com os dizeres "Help" e "The cake is a lie". Apesar de todo o humor que é utilizado durante todo o game, essas pichações, e esse lugar totalmente desprovido de vida humana, cuja única voz é um computador, chega até mesmo a criar uma certa sensação de medo e tensão, mesmo enquanto você ri das falas do computador.

Claro que é impossível fazer uma resenha de Portal sem mencionar o único personagem fora o jogador, o vilão do game, que praticamente dá vida ao mesmo. Da mesma forma, nada é explicado sobre esse computador estranho que utiliza do melhor humor sarcástico que já vi em um game. Um dos melhores exemplos, no qual eu rio todas as vezes em que jogo, é no teste número 9, que começa com o computador te dizendo, com uma voz robótica e sem emoções, que "lamentamos informar que o próximo teste é impossível. Não tente resolvê-lo." Eventualmente, depois de resolvê-lo, o computador diz com certo ar de alegria: "Fantástico! Você se manteve firme e engenhoso diante de uma atmosfera de pessimismo extremo."

Essa combinação ótima de mistério, tensão e humor praticamente dá todo o charme que um bom jogo precisa. Isso tudo ainda é sem mencionar a música que toca nos créditos finais do game, que é simplesmente fantástica. E claro, tem bolo no fim.

 

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GRÁFICOS

Portal usa a Source Engine, a maravilhosa engine feita pelos deuses (leia-se: uma das minhas favoritas) que foi usada em múltiplos games, incluindo Half-Life 2, Vampire The Masquerade: Bloodlines e Left 4 Dead. Considerando que Portal foi lançado em 2007, e 2007 também foi o ano de lançamento do todo-poderoso dos gráficos, Crysis, é fácil descartar Portal como um game de gráficos excessivamente simplórios. Também existe o fato de que Portal é um jogo pequeno e que parece um jogo "indie", apesar de ser da Valve.

Porém, isso não quer dizer que Portal é tosco. O fato da Source Engine ainda ser usada mesmo em 2009 prova que é uma engine muito adaptável e que roda em computadores muito antigos (joguei Portal pela primeira vez num Pentium 4 com uma NVidia 7600GS). E o propósito de Portal está bem longe de ser o mesmo de Crysis. Seus ambientes limpos e aparentemente esterilizados funcionam muito bem para os quebra-cabeças, e a engine ainda tem bons efeitos de iluminação. Texturas podem ser um pouco borradas às vezes, mas na maior parte do tempo o jogo é bem agradável ao olhar.

 

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A coisa nova de Portal são os portais em si. É possível ver tudo que está através de um portal, e se os portais estiverem um de frente pro outro, é possível ver um portal dentro de outro portal, até 9 vezes, dependendo do que for selecionado nas opções do jogo. O jogo ainda assim recomenda que apenas 2 portais possam ser vistos, para não sobrecarregar processamento e cair o framerate.

SOM

Portal segue a escola Half-Life de apresentação, inclusive no som. A maior parte do tempo, o game utiliza de trilha sonora minimalista, apenas aparecendo de vez em quando em cenas mais impactantes, ficando em silêncio quase o tempo todo. Efeitos sonoros são ótimos, especialmente em conjunto com a física da Source Engine, que ainda é a melhor de todas. Coisas caindo soam naturais, assim como em Half-Life 2, e apesar de possuir uma característica bem minimalista, o som funciona bem. A melhor parte é a atuação de voz. A única voz que ouvimos é a do computador-vilão, mas nem precisa de mais nada. A atuação robótica só faz todas as piadas serem mais engraçadas, e a luta final é um espetáculo à parte, com múltiplas vozes diferentes e linhas de diálogo absolutamente hilárias.

JOGABILIDADE

Portal é bem básico e simples. Você está preso dentro de um laboratório no qual estão sendo feitos testes com portais. Para tanto, você precisa navegar por 19 salas de teste que aumentam gradualmente em dificuldade, resolvendo seus problemas de navegação apenas com os portais.

Basicamente, a princípio, o game abre os portais pra você. Os portais podem ser laranjas ou azuis. Quando você entra pelo portal laranja, sai pelo azul, e vice-versa. Eventualmente, o jogador recebe uma "portal gun", que permite que você crie esses portais usando os botões do mouse, e com eles você deve navegar os níveis. Claro que os problemas começam simples o suficiente, mas conforme o jogo passa, coloca mais obstáculos no seu caminho, como lagos de ácido, pequenos robozinhos que atiram em você ao localizá-lo, ou mesmo obstáculos físicos dos níveis.

 

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E não é necessário apenas "pensar em portais". A Valve ainda aposta em suas forças, e ainda utiliza os quebra-cabeças de física em Portal. Dessa vez, o show fica por conta dos quebra-cabeças que usam o conceito de movimento linear e inércia. Sim, aquelas leis chatas de Newton que você tinha no ensino médio, cuja primeira lei dizia que um corpo em repouso tende a permanecer em repouso e um corpo em movimento tende a permanecer em movimento. Bem, esse movimento é conservado entre portais, ou seja, será necessário que você crie uns loops bem doidos de movimento e conservação para conseguir passar.

Uma das grandes vantagens de Portal é que nunca é fácil demais a ponto de você não sentir nenhuma dificuldade, e nunca é difícil demais a ponto de você ficar preso numa fase por horas. Normalmente, quando jogando pela primeira vez, alguns enigmas vão parecer difíceis, e você vai olhar pra eles por um tempo até a solução simplesmente aparecer na sua cabeça como se fosse mágica, num "Uia, posso colocar um portal aqui e pular daqui pra sair voando ali" ou coisas parecidas. Depois que o conceito dos portais e da conservação de movimento linear entram na cabeça, o jogo se torna intuitivo e simples, porém não fácil.

 

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Se tem uma coisa que dá pra reclamar em Portal (e ainda assim é uma reclamação relativa) é que o jogo é realmente curto. E digo, realmente curto. É menor que qualquer Call of Duty, levando por volta de 3 horas, se for a sua primeira vez jogando. Agora consigo terminar Portal depois de 1 hora e meia de jogo, mais ou menos. Vejo isso como uma vantagem e uma desvantagem, a vantagem sendo que Portal não fica chato demais e nunca passa pela sua cabeça "putz, esse jogo não acaba nunca!". Por outro lado, muito pouco tempo de jogo também é uma desvantagem pro pessoal que gosta mesmo de quebra-cabeças. Aguardem o lançamento de Portal 2 esse ano para ter mais tempo de jogo.

FATOR REPLAY

A Valve inclui no pacote do Orange Box algumas fases extras de Portal, incluindo as mesmas salas de teste do jogo original, porém versões avançadas e mais difíceis, e alguns desafios com tempo, para que o jogador mostre que é bom sob pressão. Também existe uma comunidade extensa de criação de mapas e desafios para Portal, caso o jogador goste desse tipo de extensão de jogabilidade. Quanto à campanha single-player, não há muito o que fazer depois que se termina o jogo pela primeira vez, a não ser ouvir novamente a musiquinha de encerramento e tentar terminar o jogo mais rápido.

 

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PRÓS E CONTRAS

+ Premissa original

+ Mistério mantém interesse

+ Um dos games mais engraçados dos últimos anos

+ Vilão perfeito

+ Source Engine ainda funciona perfeitamente, especialmente nos efeitos de física

+ Roda até mesmo em peças de museu

+ Trilha sonora ótima, ao melhor estilo Half-Life

+ Atuação de voz excelente e engraçada

- Menos de 5 horas de jogo

+ Balanço perfeito de dificuldade e acessibilidade

+ Aprendi o conceito de movimento linear com Portal (games também são cultura)

- Fator replay limitado

CONCLUSÃO

Jogar Portal é como ler um pequeno conto. É curto, mas é mais substancial do que muito jogo enorme por aí. E sempre que o jogo, penso em como muitos jogos tentam fazer comédia e falham miseravelmente, enquanto Portal obtém sucesso quase total nesse quesito. Só espero que a sequência que será lançada em abril de 2011 não estrague mais uma de minhas novas franquias favoritas. E aproveitem o bolo.

5 Comentaram...

lucas disse...

Outro jogo bom em primeira pessoa, onde se utiliza apenas uma arma e o objetivo é resolver quebra cabeças é o The Ball.

Thiago Dorneles disse...

Quando a valve lançou oficialmente a a Steam Cloud ela disponibilizou dois dias para atribuir gratuitamente portal na conta. EU FUI UM DOS QUE APROVEITARAM !!!1

deABREU disse...

esse jogo saiu em 2007. todo mundo que queria saber se é bom a) já jogou; ou b) leu resenha em outro lugar.

por favor.

FiliPêra disse...

@deABREU...

Não dava pra ser mais mala, amigo? Se já leu a resenha em outro canto ou já jogou o game, simplesmente ignore o post. Nós não temos, nem nunca tivemos qualquer obrigação de lançar os textos resenhando todos os lançamentos. Escrevemos aquilo que jogamos no momento. Não gostou, pule pro próximo texto e pronto!

José Renato disse...

@FiliPêra

Engraçado que quando faço dos novos, ninguém comenta.

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