sexta-feira, 12 de novembro de 2010

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Fragmentos da História da Repressão Político-Estatal [Parte 3]

 

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[Parte 1 & Parte 2]

Nesse ponto muitos devem estar se perguntando se existem alternativas ao modo de governo baseado no Estado e na Política. A resposta é sim, sempre existem alternativas válidas a qualquer coisa, mas as raízes capitalistas e competitivas em que se baseiam as sociedades ocidentais (e orientais também, a essa altura. Mas quando falo ocidental, me refiro ao modo de pensamento ocidental, principalmente o filosófico, bastante herdado dos gregos) nos dão a impressão que o ruim é melhor que o péssimo, que tudo é bipolar.

Aristóteles foi um dos principais desenvolvedores dessa dualidade. Tudo pode - e deve - ser configurado e enquadrado em Sim ou Não, Certo ou Errado, Verdadeiro ou Falso, Branco ou Preto. Não existe o Talvez, o Incerto, o Cinza... a realidade do jogo platônico-aristotélico que herdamos e nos baseamos é inteiramente construída dentro de preceitos absolutos que se opõem. Por isso que logo imaginamos uma sociedade sem Estado como uma sociedade bagunçada, com indivíduos ocupados apenas em prejudicar o próximo (como Hobbes tanto afirmava).

Tal desvirtuação semântica, segundo os registros mais confiáveis que possuo, se originou entre os filósofos gregos - sim, voltemos a eles. Era uma prática relativamente comum entre eles mudar o sentido das palavras para se adaptarem a um modelo distorcido de realidade que comprovasse suas próprias teorias. Como exemplo ficam os próprios Sofistas. A palavra Sofisma significa sabedoria, conhecimento superior, o que diz muito sobre a natureza deles de transmitir conhecimento para quem quisesse (mesmo que em troca de dinheiro. Mais sobre os Sofistas nesse meu texto). Mas, como as idéias deles iam de encontro a do grupo mais poderoso de filósofos da época - os Seguidores de Sócrates -, estes cuidaram de realizar uma campanha difamatória para mudar o sentido da palavra Sofisma, que passou a ser enganação, uma mentira propositalmente maquiada por argumentos verdadeiros, para que possa parecer real.

Outro caso parecido ocorreu com os Cínicos. A linha filosófica Cínica, fundada por um discípulo de Aristóteles, pregava um total desapego aos bens materiais. Mais uma vez, ela ia de encontro a alguns conceitos dos Filósofos dominantes da época e uma nova campanha difamatória rolou, mesmo com esse grupo defendendo um forte desenvolvimento das virtudes morais. Para os Cínicos, bastava o homem ser virtuoso para alcançar a plenitude, a felicidade. A esse conceito os Cínicos chamavam de Autarquia, que era o estado de auto-suficiência dos sábios. A libertação de grilhões externos - coisas materiais, reconhecimento alheio e mesmo a preocupação com a saúde, o sofrimento e a morte - seria justamente o caminho para a felicidade. O motivo para a difamação é bastante claro para mim, e envolve justamente o conceito político de Platão, que defendia que os filósofos eram os mais preparados para ocupar os cargos públicos. Por esse motivo, Cinismo não entrou para a história como renúncia a bens materiais ou busca pela virtude, mas como descaramento, desaforo, provocação, imprudência.

Foi dessa forma, afastando os seus opositores e destruindo suas obras, que a Filosofia Platônica-Aristotélica (derivada da Socrática, naturalmente) passou para a história como a mais pura, correta, o que dá a ela aparência de única. Historicamente é natural que no Ocidente esse tipo de situação ocorra, inclusive num campo que deve ter lugar para todo o tipo de teoria: a Ciência. Uma elite científica canoniza dogmas e conceitos e literalmente impede que outro tipo de teoria seja desenvolvida ou mesmo pesquisada. Como exemplo rápido (em breve escreverei um texto sobre Fundamentalismo Científico, o assunto exige mais espaço que um ou dois parágrafos) fica a teoria darwinista com relação a Evolução das espécies. Uma vasta maioria da população deve pensar ser a teoria da Evolução de Darwin - baseada em competitividade - a única com base científica que discorra sobre o assunto. Analisando um pouco as obras científicas sobre o assunto logo se entende que a teoria darwinista é somente a pregada pela comunidade científica que está no poder, o que não faz dela a única. As outras são suprimidas, não recebem qualquer destaque. O fato da teoria de Darwin, não por coincidência a que melhor se encaixa na dinâmica capitalista competitiva, ser a mais conhecida deriva do fato das outras serem relegadas a segundo plano por motivos econômicos.

 

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No dia 24 de setembro de 1981, a revista Nature, o periódico científico mais respeitado da Inglaterra, publicou uma reportagem condenando à fogueira o mais recente livro do PhD Rupert Sheldrake. O tal livro era A New Science of Life, que propunha uma Teoria Evolucionista que ia de encontro a Seleção Natural de Darwin. No livro, o Dr. Sheldrake teorizava sobre a existência do que ele chamou de Campo Morfogenético, que seria como uma memória coletiva das espécies, o que explicava como tipos diferentes de animais contém ferramentas adaptativas análogas. Tal teoria torna científico o conceito jungiano de Inconsciente Coletivo, e ainda tira dos genes a responsabilidade de transmitir os conteúdos presentes nele - o que a Biologia listou como impossível.

O Campo Morfogenético seria como estações de TV transmitindo informações básicas às espécies, e os genes seriam as TVs em si. Piotr Kropotkin (sim, um dos pensadores pioneiros do Anarquismo Filosófico), em 1902, também propôs uma teoria evolucionária diferente da darwinista, exposta em seu livro Mutualismo: Um Fator de Evolução. Ali ele expõe a ajuda mútua entre insetos e outras espécies como um fator mais importante para a evolução do que a competição, e se cerca de argumentos e exemplos tão bem fundados quanto Darwin. Tais teorias foram reputadas, ou mesmo suas provas analisadas? Não… foram simplesmente abandonadas pela maioria dos cientistas por motivos obscuros - Eu diria político-econômicos, mas deixa isso pra depois.

Existem muitos outros exemplos - dentro e fora da Biologia - que mostram como dogmas elitistas são a base de muito do pensamento ocidental. A História básica (aquela ensinada nas escolas) geralmente só se fixa em ensinar sobre as mesmas civilizações - Mesopotâmia, Egito, Grécia, Roma, Mesoamérica - não coincidentemente as que melhor espelham os conceitos de Estado e organização social moderna do Ocidente. Mas como disse, deixemos a Ciência para outro ensaio. O que importa é conectarmos essa idéia de imposição dogmática com o modo como o pensamento relativo a grandeza do Estado se incrustou em todo o mundo.

Naturalmente, existem povos que vivem sem Estado, assim como teorias anti-Estado. A mais conhecida dessas teorias é a Socialista, que na sua aplicação acabou desvirtuada ao ponto de se tornar um amplo fortalecimento do poder ditatorial do Estado, como bem mostra as aplicações soviéticas e chinesas, por exemplo. Em sua base essencialmente teórica, o Socialismo visava dar aos trabalhadores força suficiente para resistirem a dominação elitista, como a política dos Sovietes nos primórdios revolucionários russos demonstrou. Entretanto, os bolcheviques utilizaram a forma como os Sovietes solaparam o poder czarista para instituírem eles mesmos uma nova ditadura que centralizava sob o guarda-chuva deles todas as atividades do país. Voltando para o exemplo de Darwin, o Capitalismo seria como o Evolucionismo e o Socialismo como o Criacionismo. O Aristotelismo cria a impressão dos dois conceitos serem insolúveis e não se misturarem, e esse conflito naturalmente esmaga qualquer tentativa Cinzenta de propor alguma teoria que una as duas - ou mostre algo completamente diferente. Quem apóia um dos pontos defendidos pelo Socialismo é automaticamente perseguido pelos defensores do Capitalismo como se fosse integralmente Socialista. Quem apóia o Campo Morfogenético na visão fundamentalista automaticamente cospe em cima de Darwin. O mesmo princípio pode ser aplicado a uma infinidade de coisas. É a Lógica Dualista Aristotélica.

 

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David Graeber (esq), que não teria seu contrato com a Universidade de Yale renovado por causa das suas idéias anarquistas

Em meados da década de 1980, David Graeber viajou para o Madagascar para fazer uma pesquisa para o PhD em Antropologia dele. Ficou por lá uns seis meses e formulou uma Teoria Prática de Aplicação do Contrapoder efetivamente calcada em experimentalismo e não unicamente em captações teóricas. No continente africano, Graeber conheceu vários povos e sociedades que não se baseavam em hierarquias ou Estados, o que lhe permitiu observar e encontrar outros grupos que viviam sob condições parecidas. O Contrapoder ali presente seria um conjunto de instituições sociais e auto-geridas que existiriam justamente para impedir que estruturas de poder os governe - sindicatos, milícias populares. Em diversos países esse tipo de mobilização popular acabou se incorporando e beneficiando o Estado e o Governo, mas em outros assumiu um caráter fortemente radical e revolucionário, tanto física quanto psicologicamente. Em alguns casos também, as instituições de poder utilizam a essência dessas organizações para joga-las num contexto social e desmoraliza-las. O "problema" é que esses meios alternativos de auto-gestão não constroem ferramentas para garantir a própria longevidade, e acabam despedaçados ante a força de ataques exteriores ou por fragmentações decorrentes de facções internas. As comunidades libertárias que prosseguem em sua existência são justamente as que venceram essa barreira psicológica de aceitação do Estado e uma capacidade de mobilização ou simplesmente fuga quando pressentem a chegada do poder. Todos esses elementos se integraram ao ensaio sobre Antropologia Anarquista de Graeber.

Um dos exemplos mais recorrentes para mostrar como uma auto-gestão de trabalhadores pode funcionar é a Comuna de Paris. Classificado como o primeiro governo operário da história, ela foi fundada em 1871, após a invasão alemã a capital francesa. Mas o governo francês comandado por Louis Thiers, amplamente favorável a capitulação frente aos germânicos, não gostou que formas autônomas de gestão ganhassem vida e servissem de exemplo para o resto dos trabalhadores amotinados - somente os parisienses estavam resistindo a invasão alemã, o resto havia se entregado. Oficialmente, o governo da Comuna durou de 26 de março a 28 de maio, mas antes disso já enfrentava tanto as tropas invasoras quanto as francesas. Posteriormente eles seriam massacrados pelos militares, resultando numa chacina onde mais de 30 mil trabalhadores perderiam suas vidas, 38 mil seriam aprisionados e 7 mil deportados. Mas nessas poucas semanas de governo operário, uma série de medidas foram tomadas. O tipo de decreto do governo da Comuna, simbolicamente mostra bem como provavelmente seria uma administração a longo prazo feita por ele.

O site Espaço Acadêmico descreve algumas dessas medidas:

 

A Comuna suprimiu o serviço militar obrigatório e o exército permanente, substituindo-o pelo povo armado. Isentou os pagamentos de aluguel de moradias durante o período da guerra; suspendeu a venda de objetos empenhados nos estabelecimentos de empréstimos (mais tarde ordena a supressão das casas de penhor, pois estas eram uma forma de exploração dos operários); decretou a separação da Igreja do Estado; estabeleceu um teto salarial para os funcionários públicos que não deveria exceder ao dos trabalhadores;  destruiu símbolos do chauvinismo e de incitação do ódio entre as nações (a bandeira da Comuna era a bandeira da República mundial); ordenou a ocupação das fábricas fechadas pelos patrões e organizou o reinício de suas atividades pelos operários organizados em cooperativas; declarou extinto o trabalho noturno dos padeiros. A Comuna, porém, não teve força ou clarividência para tomar e nacionalizar o Banco da França, o que a deixou economicamente nas mãos de seus inimigos.

Uma experiência essencialmente anarco-socialista também foi experimentada por algumas regiões da Espanha - com ênfase na Catalunha e Aragão - na época da Revolução Espanhola, no período de 1936-39. Com o desenvolvimento econômico espanhol no final do século XIX, várias organizações socialistas e anarquistas se desenvolveram e criaram bolsões de governos operários independentes da autoridade central. A poderosa Confederación Nacional del Trabajo (CNT) e a Federação Anarquista Ibérica (FAI) se uniram, recusaram-se a participar das eleições partidárias e proclamaram governos revolucionários e independentes em várias regiões espanholas, criando um vazio político extremamente forte.

 

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Segundo a Wikipedia: "Os trabalhadores nela organizados a controlam em regime de democracia direta. Nenhum cargo é pago. Os sindicatos, além de usar a ação direta como meio para defender os interesses dos trabalhadores, criam escolas e várias atividades educativas, que procuram suprir a inexistência de uma educação pública estatal. Tais escolas possuíam forte tendência anticlerical, o que torna-as ainda mais escandalosas aos olhos dos católicos". Em oposição a essas organizações, surgiu uma união da Igreja Católica com a elite agrária do país, grupos que se opunham a qualquer tipo de forma ou concessão de poder para trabalhadores. Com essa forte oposição formada, uma série de acontecimentos começou a derrocada da Revolução que se estabelecia. A CNT e outros sindicatos são considerados ilegais e passam a ser perseguidos tanto por militares quanto por mercenários contratados. Tanto guerrilheiros de esquerda como pacifistas foram assassinados pelas forças do governo. Grupos armados de orientação anarquista como o Los Solidarios foram formados com a intenção de resistir ao terror empreendido pelo Estado espanhol. Com a vitória de um governo de esquerda nas urnas, um golpe militar apoiado pela Igreja Católica parecia cada vez mais iminente. Vários empresários fugiram do país com medo de uma guerra civil, e os trabalhadores aproveitaram esse vácuo administrativo para coletivizarem fábricas e terras (sem qualquer ordem dos grupos esquerdistas eleitos), que eram dirigidas pelo recurso da auto-gestão.

Entretanto, no dia 18 de Julho de 1936, o golpe militar começou, lento, aos poucos. O governo pareceu extremamente desorientado e em um dia de golpe quase toda a sua estrutura estava desbaratada pelos militares rebeldes. Os sindicatos trataram de armar os trabalhadores para impedir a vitória golpista, carros com as siglas CNT-FAI patrulhavam as ruas. O povo terminou por garantir uma vitória preliminar sobre os militares e uma revolução se instaurou. Símbolos da antiga sociedade - dinheiro, igrejas, ídolos - eram queimados, casas de burgueses eram saqueadas e as coletivizações se espalharam por todo o país.

Um exemplo interessante dessas auto-gestões indicando o sucesso delas pode ser encontrado na administração das barbearias [Bryan Caplan]: "Antes da Revolução, haviam muitas barbearias pequenas, muitos desempregados, e os que estavam empregados trabalhavam longas horas por dia. Após terem tomado posse das barbearias, os cabeleireiros decidiram fechar várias delas, reduzindo a competição entre locais próximos. Além disso, todos os barbeiros foram admitidos, resultando na diminuição das horas de trabalho para cada indivíduo. Como o lucro deixou de ser subtraído pelo patrão, eles passaram a receber mais, e a poder reinvestir em seus instrumentos de trabalho, melhorando o atendimento".

Até mesmo a milícia popular que atuava militarmente na manutenção eram tomadas por um certo Caos, que entretanto funcionava muito bem. Os soldados aceitavam a disciplina voluntariamente e os comandantes eram eleitos por eles - e poderiam perder o mandado a qualquer momento, caso a confiança neles depositada diminuísse. As mulheres tiveram seus direitos assegurados e puderam frequentar lugares em que antes eram proibidas de ir. A política do grátis se estendeu a vários produtos e um certo racionamento se foi instaurado a outros, visando impedir que poucas pessoas monopolizassem qualquer bem - é novamente importante frisar que todas essas medidas eram populares, não impostas por nenhuma forma de governo externo.

 

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Mas os olhos de outros Estados vizinhos foram colocados sobre os desdobramentos revolucionários dentro da Espanha. Uma aliança de países fascistas - Alemanha, Itália, Portugal - se organizou para derrubar a Revolução militarmente, fornecendo tropas e conselheiros militares para os golpistas - até padres foram treinados para serem snipers no alto das Igrejas. Entretanto, não é só do Fascismo que a classe trabalhadora encontrou oposição. EUA, Inglaterra, França e outras potências aliadas além de não a ajudar, empreenderam um bloqueio comercial somente a parte republicana (revolucionária) da Espanha. Nem mesmo a União Soviética ajudou os revolucionários, se limitando a vender alguns armamentos que se mostraram pouco úteis. A ajuda veio na forma das Brigadas Internacionais, mais de 40 mil trabalhadores vindos de todas as partes do mundo - a maioria da França e Alemanha, mas o contingente era integrado até mesmo por brasileiros - se voluntariaram para combater pela causa operária, condenando-se a uma prisão ou morte certa caso voltassem aos seus países. A Revolução terminou por ser esmagada completamente em 1 de Abril de 1939, e a Espanha mergulhou definitivamente no Fascismo da ditadura de Francisco Franco por mais de 35 anos.

No caso da Espanha ficou claro (ou pareceu ficar) como um modelo de anarco-socialismo nos moldes propostos por Kropotkin e Bakunin poderia funcionar - e efetivamente funcionou -, mesmo que sob intensa pressão militar interna e externa. Também ficou claro como todos os maiores grupos políticos da época - Capitalismo, Comunismo, Fascismo - se uniram para sufocar qualquer modelo ou fagulha de ideologia que mostre ao mundo como funciona uma nação sem Estado, sem domínio dos poderosos. Tal iniciativa foi esmagada justamente pelo caráter pacifista desse tipo de gestão, que se opõe às práticas predatórias e criminosas de Estados e nações listados nesse ensaio. Com essa forte oposição de forças colossais, é natural que povos ou sociedades libertárias sejam pequenas e façam o possível para não fazer parte de iniciativas agressivas, mesmo que disso dependa a sobrevivência delas.

 

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Um dos pioneiros do modelo de antropologia política - analisar povos e sociedades a partir de relações de poder e somente não por mitos e hábitos - foi Pierre Clastres. Apesar de ter morrido prematuramente num acidente, seu trabalho serviu de base para todo um grupo de antropólogos e sociólogos que se punham a esse tipo de análise um pouco mais aprofundada dos primórdios da política. Ao longo de suas viagens e pesquisas, Clastres identificou várias sociedades que ele classificou como primitivas, que além de não possuírem Estados, criaram estruturas que lutavam contra o aparecimento de um. De um modo geral, a impressão que fica é que essas sociedades sejam extremamente atrasadas e com fragmentos de facções políticas incontroláveis, mas a verdade que ele constatou é justamente oposta: esses grupos humanos eram tão desenvolvidos socialmente que não necessitavam de figuras de poder, hierarquias ou Estado. O desenvolvimento chegava a tal nível que pelos escritos de Clastres essas sociedades pareciam possuir a consciência da ganância e das divisões resultantes do aparecimento do Poder. O Estado seria uma estrutura inviável e dispensável nessas sociedades pelo fato delas serem altamente organizadas.

Como exemplo ele começa seu estudo listando os índios Yanomami da Venezuela. Apesar do significado semântico dos nomes dos seus cargos, os "chefes" das tribos Yanomami efetivamente não têm nenhum poder, apenas desfrutando do poder de falar para o vazio. Ele é como uma figura decorativa, um pastiche do verdadeiro poder coercivo estabelecido em outras sociedades. Como uma espécie de privilégio para o fato de ser meramente uma posição decorativa, o chefe pode ser polígamo e distribuir presentes a todo o povo da tribo, colocando em prática o caráter de generosidade que deve ser inerente a todos os chefes indígenas. A figura que poderia ser reconhecida como portadora de poder, o pajé, é isolada e só pode se dirigir ao povo completo, sendo impedido de formar um corpo de sacerdotes ou algo similar, evitando a estratificação social entre a tribo. Aliás, a figura do pajé/xamã serve como metáfora para o que deveria ser o Estado ideal. As autoridades religiosas de tribos indígenas ou nativas são as que mais se aproximam de figuras dotadas de algum poder, mas terminam por ser reféns deles. Um pajé precisa efetivamente curar uma pessoa doente, assim como afastar maus espíritos que porventura assombrem alguém. Se o povo decidir que ele está falhando nessa tarefa, a punição pode ser o exílio ou mesmo a morte. Os primórdios do Estado são justamente assim: uma instituição para servir o povo, mas ela terminou por se tornar auto-suficiente e o povo passou a servi-la, numa inversão de papéis dramática.

 

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Os Yanomami

Como era de se imaginar, os Yanomami sofreram constantes ataques devido a buscas de garimpeiros a suas terras. David Graeber, que em parte continuou o trabalho antropológico de Clastres, identificou outros povos também. Os Piaroa são um povo indígena que também habita a Venezuela. Ao contrário dos Yanomami, os Piaroa não são dados a guerra, tendo relações extremamente pacíficas, tanto internas quanto externas. Segundo organizações indígenas venezuelanas, o número de assassinatos entre os Piaroa muito dificilmente sai do zero em índices anuais. Os Tiv são outro exemplo de povo libertário e habitam as margens do rio Benue, na Nigéria. Mas ao contrário dos povos latino-americanos análogos, eles possuem estruturas familiares bastante estratificadas, mesmo que um certo conjunto de famílias formem um clã, mostrando uma aproximação com o modo de organização do homem paleolítico.

Duas características eram bem marcantes tanto nos povos estudados por Clastres (que discorreu sobre MUITO mais povos do que falei aqui) quanto os por Graeber: existe um forte elemento psíquico oculto que serve como ferramenta anti-poder. Se na maioria dos Estados o sentimento de segurança ante ameaças externas e uma certa promessa vazia de enriquecimento - em conjunto com ferramentas amortizantes, como TV e outros grandes eventos catárticos, como os esportivos - agem como esse elemento que garante a longevidade do grupo de poder, nessas sociedades libertárias essa ferramenta é um tipo de fardo mitológico. Os sacerdotes religiosos e xamãs desses povos estão em contínua guerra contra forças espirituais que estariam prontas a matar todos que estariam dispostos a abraçar o poder. Então, da mesma forma, essas sociedades reprimem a ganância e busca pelo poder através de chaves psicológicas, só diferenciando-se de Estados por não precisarem de meios físicos para empreenderem repressão, se limitando a uma guerra mítica e imaginária.

Analisando empiricamente os resultados obtidos pelos dois modelos, creio ser desnecessário dizer qual que parece mais eficaz no sentido de estabelecer uma sociedade igualitária e pacífica. Com isso, não quero dizer que uma sociedade baseada numa espécie de terror religioso possa ser mais bem estruturada do que outra secular, mas sim que a troca de valores empreendidas por boa parte das sociedades ocidentais - aliado a uma distorção mercantilista na religião cristã, que em muitos lugares se une ao poder governamental de forma indivisível - leva a uma ampliação da ganância por parte dos que habitam nelas. Pode parecer papo teórico e retrógrado, mas analisando a questão de forma prática e comparando sociedades ocidentais com algumas libertárias se entenderá a extensão das diferenças estruturais entre elas. Peguem índices puramente matemáticos (o que naturalmente nos fornece um panorama incompleto, mas bem convincente), como número de crimes, para entender estatisticamente o alcance dessas diferenças.

E agora vem a outra pergunta crucial. Esse modelo com elementos fortemente retrógrados para a visão científica do Ocidente poderia funcionar numa sociedade que está livre desses dogmas religiosos, como boa parte dos povos deste lado do globo? Bom, em primeiro lugar é preciso dizer que ocidentais não estão livre de dogmas, pois eles são inerentes a Cultura. Como foi demonstrado acima, existem Chaves Psicológicas que têm como função desviar a atenção humana de uma questão e colocá-la em outra. Seu uso é comum por parte dos Estados, são como coisas como Nacionalismo, Terrorismo, Drogas... são inimigos tão reais quanto as evidências que os Tiv e Piaroa possuem dos Deuses que se vingam dos que querem mandar em outros. Existem indícios e histórias que circulam pelo imaginário popular e que raramente chegam a ser provados de fato, mas que passam pra posteridade como verdades absolutas. A diferença é que certas histórias, dogmas ou Chaves Psicológicas são melhor aceitas em cada tipo de sociedade… mas o efeito delas é o mesmo.

E mesmo livre desses dogmas é possível encontrar iniciativas libertárias e igualitárias - sem estruturas de poder - dentro de Estados ou outras formas de organização baseadas em pesadas hierarquias. Um bom exemplo foi o centro do estudo de David Graeber: os malgaxes, do Madagascar. A própria ilha de Madagascar tem um histórico de atividades libertárias, sendo palco do maior refúgio pirata por muito tempo: a quase mítica República de Libertatia. Os Piratas que ali moravam eram lúdicos, entregues ao prazer e a bebida, e boa parte deles se punha a libertar navios negreiros. Com os Piratas, os Malgaxes aprenderam a tática do Escape (ou Recuo), simplesmente se afastando para terras mais selvagens quando a colonização vinha junto com a civilização dos impérios - aqui no caso, junto com os franceses.

 

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Os Malgaxes são outro povo com raízes libertárias que vivem dentro de um Estado. A observação dos questionáveis métodos franceses - escravidão, ordens, divisões sociais, hierarquias - levou-os a ampliarem suas atitudes e tradições pacifistas, considerando até mesmo coisas socialmente aceitas - como o trabalho remunerado - abominações sociais. Mesmo na década de 1980, a forte presença de pesadas raízes religiosas que poderiam ser classificadas como coercivas foram encontradas por Graeber. Diz a religião própria deles que aquele que enriquecesse em demasia tinha o risco de sofrer pesadas maldições enviadas pelos deuses, e cabem aos feiticeiros e xamãs entrarem em guerra espiritual contra eles.

Isso durou até meados da década de 1980 - período em que começou uma crise econômica degradante na ilha -, quanto uma série de medidas do governo de Madagascar, visando integrar o povo Malgaxe ao restante da população (na verdade seria o inverso, já a enorme maioria da população da ilha é descendente dos Malgaxe), começou a deteriorar a cultura deles, chamada Fihavanana. A falta de um Estado atuante colapsou o país em poucos meses. A polícia não mais investigava crimes, o saneamento básico estava em frangalhos, o lixo não era recolhido e faltava alimentos. Só os Malgaxes continuaram organizados, pois não dependiam dos serviços estatais, criando formas de auto-governo que funcionaram a contento. Foi justamente essa autonomia que chamou a atenção do governo, que enviou uma série de bispos e autoridades para "integrar" os Malgaxes. Pela primeira vez em mais de um século o sentido da frase malgaxe "a relação é mais importante do que o dinheiro" se perdeu. O choque cultural entre os católicos e os Malgaxes acabou gerando conflitos profundos entre as duas partes, entretanto, parte dos Malgaxes cumpriram sua tradição e experimentaram um novo recuo.

Mas os Malgaxes, mesmo que de certa forma integrados a sociedades ditas modernas - não-primitivas, como diriam alguns sociólogos que se expressam mal -, podem ainda ser descritos como um exemplo isolado que também depende de de repressão psicológica para manter sua condição libertária. Mais exemplos são inúmeros: os Bororo, os Baining, os Onondaga, os Wintu, os Ema, os Tallensi, os Vezo, onde um estudioso poderia apontar as mesmas rupturas psicológicas estruturais envolvendo uma religião que serve como muro anti-poder. O problema de arranjar um exemplo estruturado de uma sociedade moderna que viva em moldes anarquistas e libertários soa contraditório por si só, já que mais uma vez a desvirtuação semântica exige que quando se der um exemplo de uma sociedade anarquista, inconscientemente se quer um Estado anarquista, o que é impossível. Estados Anarquistas são a raiz da contradição, já que a abolição dessa estrutura de poder é que seria a primeira característica de uma sociedade assim. Portanto, o Brasil não pode ser anarquista, por exemplo, pois o Brasil é um Estado... mas é esse tipo de exigência que está implícita em todos pedidos de exemplo.

Ademais, existem outro tipo de exemplo, como iniciativas sem estruturas hierárquicas. Uma delas é o Linux. Qualquer um com um razoável conhecimento em computação sabe que fazer um Sistema Operacional envolve muito esforço e mão-de-obra qualificada. A iniciativa Linux, que se integrou ao Projeto GNU, é uma organização - é, de certa forma podemos chama-la assim - é baseada em dádiva, que também sedimenta a maioria das sociedades libertárias. Ninguém (ou quase ninguém) ganha nada pelo trabalho e é tudo distribuído gratuitamente. Não vou discutir a qualidade ou falta de qualidade do sistema em si, mas é de se notar que é um projeto vencedor, principalmente no setor de servidores. O Linux parece ser um exemplo claro de como pode ser uma estrutura social onde a ganância funcione num nível mínimo.

 

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Outro exemplo é a Cooperativa Mondragón, um remanescente comercial da Revolução Espanhola. É formada por mais de cem sociedades cooperativas que atuam em diversos setores: alimentação, eletrodomésticos, universitário, máquinas e ferramentas, instituições financeiras. O segredo do sucesso de Mondragón está baseado na extrema preocupação com a formação profissional e social, a qual se tornou o elemento transformador de uma região pouco desenvolvida. Isso lá pela década de 1950. Apesar de furtar-se de ferramentas criadas para manter Estados - escolas e trabalho -, a Mondragón pode ser vista como um exemplo de corporação que funciona a base do cooperativismo e assistência social, e não unicamente em lucros. Na Mandragón existem praticamente 60 dias de férias, 14 ou 15 salários, além de uma adaptação da empresa a realidade do país, visando a o crescimento humanístico - a empresa não tem donos, mas associados, que ganham salários ligeiramente maiores que funcionários que trabalham em outras empresas do ramo.

No entanto, o Linux e a Mondragón seriam uma forma passiva de atuação anarquista no interior de um Estado Hierárquico. Esses exemplos servem como vitrines que expõe serem viáveis alternativas de modelos que muitos consideram absolutos e únicos. E o problema é justamente esse: Modelos Alternativos. A escassez de exemplos nos moldes desejados pelos céticos que estão confortáveis, entediados e infelizes passa também pelo fato que anarquistas não desejam um embate, uma disputa de poder armada, não querem se mostrar e fincar uma bandeira num palácio presidencial. São unicamente movimentos organizados de base popular que têm em comum o fato de não terem chefes todo-poderosos para mandar e desmandar. E o fato de movimentos e manifestações anarquistas não serem exatamente fãs de publicidade só ajuda. Mas exemplos sempre existem - principalmente de TAZ, como a Rainbow Family, a Freetown Christiania, o movimento Zapatista calcado no municipalismo, a Whiteway Colony… além de revoltas históricas como a da França de 68, a Abahlali baseMjondolo na África do Sul, a revolta dos trabalhadores italianos em 1919, etc.

 

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Poucos parecem entender que ímpetos revolucionários megalomaníacos só servem pra instaurar o terror e substituir o antigo governo - que geralmente é ditatorial - por outro muito parecido. Exemplos tenho um monte: os Jacobinos, os Bolcheviques, os membros do Khmer Vermelho, Fidel Castro & Cia... Mesmo Estados com o rótulo de democráticos cometem crimes piores do que aqueles que dizem combater, como em vários exemplos que já citei - Israel, EUA, França.

Os anarquistas e o Anarquismo não se baseiam em criar estruturas para se manter no topo do poder, mas sim em desconstruí-lo a ponto de fazer uma divisão igualitária dele entre todos, além de criar formas de impedir o aparecimento de novas hierarquias. Por isso que geralmente recorre-se a sociedades com um povo possuidor de uma língua e costumes análogos pra mostrar exemplos de aplicação anarquista, já que é esse tipo de exigência cética que é enfrentada quando são necessárias exemplificações práticas. Muitos não aceitam exemplos de povos rotulados de primitivos - ou seja: que não têm costumes ocidentais - por puro preconceito, já que acham bastante difícil colocar na cabeça que podem aprender alguma coisa com um bando de africanos que moram "na selva".

Pessoas com essas idéias na cabeça estão novamente presas ao Dualismo Aristotélico: se aceitarmos o modo de organização dos Yanomami seremos pessoas vivendo em ocas e usando tangas, não existe meio termo. É essa capacidade de aprendizado que diferencia sociedades/organizações anarquistas do restante. O Anarquismo é um enclave, ele vive dentro de um Estado simplesmente porque nunca será um, no máximo fugindo da repressão. Ele nasce através de bases populares e por esse motivo é visto como uma ameaça extremamente perigosa por todo e qualquer grupamento ideológico.

Como diria Graeber: Isso por sua vez significaria que existem infinitos exemplos de anarquismo viável: praticamente qualquer forma de organização contaria como uma, desde que não fosse imposta por uma autoridade superior, desde uma banda de klezmer a um serviço postal internacional... e estão aí os casos da Comuna de Paris e da Revolução Espanhola para provar como Estados não suportam ver qualquer tipo de iniciativa independente dentro das fronteiras dele.

 

PS: Obviamente que o objetivo do artigo é a repressão estatal, e não necessariamente alternativas anarquistas. Falar mais sobre o Anarquismo, mesmo que de forma resumida,  exigiria um ensaio do tamanho desse, e talvez faça isso no futuro. Mas creio que o que falei aqui sobre o assunto serviu pra concluir bem a minha idéia.


Referências

[Livros]

A Explosão da Rússia - Alexander Litvinenko

O Príncipe - Nicolau Maquiavel

Leviatã - Thomas Hobbes

Para Além da Educação Domesticadora - Noam Chomsky

Arquipélago Gulag - Alexandre Soljenítsin

Corrupção à Americana - Amy Goodman

Stupid White Men - Michael Moore

Fragmentos de uma Antropologia Anarquista - David Graeber

A Sociedade contra o Estado - Pierre Clastres

TAZ - Hakim Bey

 

[Artigos]

Uma Noite com Noam Chomsky

Os Marxistas e sua Antropologia - Pierre Clastres

Nota Sobre o Nacionalismo - Hakim Bey

 

[Vídeos]

To Shoot an Elephant - Documentário

Sob a Névoa da Guerra - Filme

4 Comentaram...

Diago disse...

Seus textos são maravilhosos.
Espero ter sempre o prazer de le-los!

Michael disse...

Com todo respeito, mas a hipótese de Rupert Sheldrake é somente isso, uma hipótese.Por favor, não tente botar ela pé de igualdade com a TEORIA de Darwin.Fora isso, ótimo texto, e quando sai o texto sobre a espionagem russa?

FiliPêra disse...

@Michael...

Tem certeza que já leu Rupert Sheldrake? Sabe as diferenças (e as evidências) entre a teoria dele e a de Darwin, pra chamar de hipótese? Porque a TEORIA de Darwin precisou do complemento de Dawkins pra se valer quanto a transmissão de informações das espécies. Dawkins criou a teoria dos Memes e Sheldrake criou a do Campo Morfogenético (na verdade ele não criou, mas a formalizou; a hipótese havia sido criada na década de 1930), e não se pode dizer que nenhuma nem outra foi efetivamente refutada - a de Dawkins talvez mais refutada, já que certas correntes da Biologia dizem ser impossível o DNA transmitir informações, sendo somente responsável pelo alinhamento das proteínas específicas.

E, no fim das contas, a teoria de Sheldrake não nega Darwin, mas somente propõe um novo modelo que refuta a seleção natural!

Mas um texto um pouco mais amplo sobre o assunto pode ser lido aqui: http://www.saindodamatrix.com.br/archives/2007/06/campos_morfogeneticos.html

O texto é para leigos (meu caso, não sei se é o seu), mas reúne vários estudos feitos por Sheldrake e trechos de palestras dele. Acho que chamar unicamente de hipótese pela pouca idade dela soa reducionista. Acho que o caso aqui é o mesmo para o fato da Psicanálise (de Freud) ser universalmente aceita, e a Psicologia Análitica (ou Complexa) ser refutada, embora estejam apoiadas nas mesmas bases.

Bom, mas como disse, respeito todas as opiniões e escreverei sobre metodologia científica posteriormente.

O texto da espionagem já tenho esquematizado, só preciso escrever... pretendo fazer isso depois de escrever sobre fundamentalismo científico!

Rápido disse...

Rapaz, li com gosto os três fragmentos e foi uma verdadeira aula-magna de sociologia política (penso eu). Quisera eu ter lido um texto assim dez anos atrás em vez de passar meus 5 anos de facu de Jornalismo escaramuçando dentre alguns destes autores clássicos e discutindo com meus professores que "alguma coisa não fazia sentido" naquela baboseira teórica toda.

Bravo, colega!

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