segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Avatar FiliPêra

Parabéns, Mario…

 

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Não lembro exatamente em qual ano - acho que tinha meia década de idade - meu primo me emprestou um Top Game (um NES versão CCE), com Super Mario Bros como um dos únicos jogos. E foi exatamente Mario foi um dos primeiros games que joguei na vida. Era estranho, diferente daquelas quebradeiras generalizadas que já tinha experimentado infantilmente em fliperamas do meu bairro. Não tinha o fator social, os berros, os controles arcade destruídos por golpes violentos e desengonçados. Era os videogames chegando as casas, e mudando a história do entretenimento eletrônico da mesma forma que os PCs mudaram o mercado de computação.

Mario foi o personagem de uma das minhas primeiras e melhores experiências nos videogames - e mais inesquecíveis também. A fórmula era simples até o limite: só era preciso andar, pular na cabeça de alguns inimigos, ganhar uns poderes, entrar em canos, subir plantas, entrar na água… nada que uma criança de cinco anos não fizesse, mas que ao mesmo tempo tinha o poder de encantar adultos de todas as idades. Anos depois, já na sexta série, quase todos os meus colegas conheciam Mario, podiam não ter gasto horas da vida tentando salvar a mala da Peach, mas conheciam o encanador bigodudo. Na Inglaterra, por exemplo, Mario é um pop star, e como os Beatles, é mais conhecido que Jesus segundo uma pesquisa recente.

Mario nasceu como Jumpman, um carpinteiro, e nada mais era do que um pixel hiperativo que pulava das tranqueiras que Donkey Kong mandava, no jogo que levava o nome do vilão e me divertiu por incontáveis horas no Atari que tinha. As feições que se desenvolveram com a melhora gráfica dos videogames, diz a lenda, foi inspirado num porteiro italiano que a Nintendo tinha e que Miyamoto decidiu homenagear. Anos depois Mario ainda veria seu arqui-inimigo Donkey ganhar uma série só dele - Donkey Kong Country, igualmente clássica para os jogos de plataforma.

O impressionante é que hoje, exatamente hoje, 25 anos depois que Mario Bros chegou as lojas japonesas pela primeira vez, Mario mantém a mesma essência, a mesma magia, a mesma psicodelia, o mesmo espírito que mistura inocência com maluquice pueril. E aí tá a bizarrice do que representa Mario: ele é o mesmo, sempre, obedece as mesmas regras, está inserido quase sempre no mesmo mundo, com os mesmos truques, e mesmo assim evolui absurdamente com o tempo. Quando pedem pra Eu descrever como consigo gostar tanto dos games de Mario, simplesmente respondo que eles são mágicos, obras de arte, semi-abstratos… enfim, uma série de adjetivos etéreos e nada racionais. Mario não só elevou os games de plataforma ao mainstream que são hoje, como efetivamente ele é a essência dos games de plataforma. Mario testemunhou minha primeira experiência 2D nos games (Super Mario Bros.), a primeira 3D (Super Mario 64), e a primeira 4D (Super Mario Galaxy). Mario não precisa ter os pés na realidade como muitos outros games, ele simplesmente vai além disso, ativa sentimentos ao invés de racionalidade pura, e talvez seja por isso que tenha tanta dificuldade em descrevê-lo a contento.

É impressionante como dentro de uma fórmula completamente conhecida, imitada e aparentemente desgastada, a Nintendo (uma das poucas empresas que têm minha real admiração no mundo) consiga extrair tamanho frescor que não necessita de quebrar com todo o rico passado do personagem - coisa que a Sega não conseguiu com Sonic. É impressionante como num mundo onde muitos games precisam se ater a narrativas pedantes e cada vez mais formulaicas para fazer sucesso, Mario consegue mostrar a origem dos games em sua melhor forma, e ainda exibir uma evolução vibrante. É impressionante que mesmo uma geração que tenha crescido com a violência insana de GTA - que alguns críticos mais afoitos disseram que ia soterrar os games da Nintendo, que relutantemente não têm qualquer violência gráfica, com exceção de Conker’s Bad Fur Day - ainda coroe Mario como a melhor franquia dos games em todos os tempos. E é impressionante como Mario continua o mesmo bonachão que agrada um público diverso e de todas as faixas etárias possíveis - mesmo em tempos em que isso se tornou quase pecado para os chamados gamers hardcore. Muito me impressiona que em tempos em que os joysticks possuem um arsenal de botões, e os games exijam coordenação de um controlador de UAV, Mario ainda continua se atendo a limítrofe do básico dos games plataformas, onde ele praticamente só existe o corre, pula e ataca. Bem, a exigência de alguns pulos perfeitos ainda está lá, assim como vôos loucos com decolagens suicidas, mas essa é a dificuldade absolutamente manual do jogo, quase uma regressão, uma heresia frente a modernidade forçada de muitos jogos atuais.

 

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É por isso que te parabenizo, Mario. Por manter sua elegância mesmo quando dúzias de gamers que cresceram se divertindo ao queimar Goombas com sua flor de fogo, hoje dizem que você representa um atraso casual aos games. Também te parabenizo por protagonizar jóias do entretenimento mesmo em tempos ridiculamente mercantilistas em que a Cultura Pop só serve para passar adiante valores deturpados de uma sociedade cada vez mais doentia. Você é o maior, cara, sem você os games seriam como o rock sem Elvis. Você viu os games deixarem de ser uma diversão marginal, de matadores de aula, de japas aficionados, para se tornar a forma de entretenimento mais lucrativa que existe. Você não é o mais intrincado, o mais complexo, o mais inteligente, ou o mais culto… mas com certeza representa o maior convite a diversão viciante e desenfreada que o entretenimento eletrônico já inventou. Você não tem medo de experimentar: já comeu cogumelos psicodélicos, já comeu flores flamejantes, virou fantasma, evaporou na lava, ficou momentaneamente invencível, engoliu um balão e saiu voando, se explodiu com bombas, virou guaxinim, e até uma abelhinha vergonhosamente afeminada. Além disso já correu de kart, desceu a porrada em outros mascotes dos games, jogou futebol, golf, tênis, esteve num RPG, dançou… algumas vezes você fez merda, admita, ao se embrenhar em tanta coisa, mas em outras esteve em acertos fenomenais. Você não precisa de hype, não precisa orçamentos milionários, não precisa de empresas subornando revistas para obter boas notas… você é simplesmente você!

Mais uma vez parabéns, e que venham mais 25 anos e outros 230 milhões de games vendidos.

 

[Para comemorar a data especial, a Nintendo está relançando a coletânea Super Mario All-Stars para o Wii, no Japão, com um livro mostrando o desenvolvimento do personagem e com um CD com as músicas dos jogos.]

11 Comentaram...

redmarshmallows disse...

Olha, sinceramente... impossível agradecer ou descrever alguma coisa sobre o Mário, melhor do que tu fez. Parabéns Mário. Tu viverá para sempre em nossos corações.

vander disse...

Mario pra sempre! a parte final do texto deu até arrepios ahuahuaauhauhaauh eita época que nao volta mais

José Renato disse...

Pois é. Por mais que eu não goste muito dos jogos mais recentes dele (com exceção ao New Super Mario Bros. Wii) esse cara, sozinho, salvou a indústria dos games da falência. E ninguém teria os jogos que tem hoje se não fosse por ele. Parabéns, Mario.

Ps.: Ops... desculpe, Mario, mas a princesa está em outro castelo...

Thiago Luiz disse...

que bom !

Filipe disse...

nossa...
essa sim foi uma homenagem a quem realmente merece, afinal, acho que o Mário foi a primeira experiencia de uns 80% do povo que é viciado em video games, e realmente, vc falou tudo neste agradecimento, o Mario n precisar fazer nada, é so ficar no mesmo lugar sem invenções, que sempre vai ser o game do nosso coração eheh
abraços

Ogro disse...

Meu comentário vai parecer um pouco anacrônico porque sou de uma outra geração de gamers. O Mario Bros. que joguei foi o de 1984/85 num computador Apple II+. Era um dos poucos jogos na época onde se podia jogar dois jogadores ao mesmo tempo e um ajudando ou atrapalhando o outro(Mario e Luigi). Uma grande revolução pra época, daí a minha simpatia pelo jogo. Hoje vejo meu sobrinho de 3 anos de idade jogando Mario num Nintendo DS e se divertindo muito. Sem dúvida há algo de mágico nesse jogo.

O Beato Enéias disse...

Isso ae brother,Mario rules!

icultgen disse...

Adorei o texto, parabéns aí :-)
Acho que se fizessem o mesmo jogo do mario do super nintendo com outras fases venderia (com os mesmos gráficos) até hoje.
Amo o mário, foi meu primeiro jogo depois de jogar Alex Kid. Não gostava tanto de Sonic quanto ele. Acho que o Mario é mais simpático heheeh

Bruno disse...

Realmente, Super Mario World foi o primeiro videogame que joguei, naquele bundle do SNES. É uma boa franquia, apesar de eu achar que alguns dos jogos mais antigos terem ficado meio datados e os novos serem fáceis demais. Parece que a Nintendo vem perdendo a mão com Mario e Metroid, pois eu achei New Super Mario Bros Wii muitas vezes melhor que os dois Galaxy, e Other M é simplesmente o pior Metroid que existe por terem transformado a Samus numa garotinha mimada em vez da personagem forte que ela é nos jogos anteriores. Ainda bem que temos Zelda, Pokemon e Pikmin pra compensar.

Ah, e 4D não existe. Não esperava que justamente você fosse cometer um erro desses, Pêra.

FiliPêra disse...

@Bruno...

Dentro de uma lógica relativista, a Quarta Dimensão seria o Tempo, que junto com as outras três formam o tecido espaço-temporal, então, o 4D existe no nosso mundo. Mas quando me referi a 4D no mundo dos games (e os games são 2D, ao menos para a gente, que os vê em TVs 2D), falava da ausência de gravidade em Mario Galaxy!

Ramon Rodrigues disse...

Somente para constar. o aniversário de 25 anos foi do JOGO SUPER MARIO BROS lançado em 1985 para NES e não do personagem Mário como diz no Post

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