sexta-feira, 2 de julho de 2010

Avatar Beatriz Paz

Dexter – A Mão Esquerda de Deus

 

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Ao ouvir as palavras da língua inglesa “serial killer”, logo pensamos em caras gigantes e deformados que saem matando pessoas adoidadamente e de jeitos muito bizarros. Ou em mascarados armados de facões que não param de te perseguir até que a sua cabeça esteja no chão bem longe do seu corpo. No entanto, os seriais killers não são tão caricatos, exemplos como os dados acima são dos chamados spree killers, ou matadores impulsivos, eles sim saem cortando pessoas a torto e a direito, e podem parar tão rápido quanto começaram. Basicamente seria estar no lugar errado, na hora errada e ser alvo da pessoa errada, como acontece na maioria dos filmes de terror de assassinos, como Leatherface ou Michael Meyers.

Então, o que seria um serial killer propriamente dito? Primeiro de tudo, um matador em série é diferente de um matador por impulso ou um matador em massa. Como foi explicado parágrafo acima, um matador impulsivo começa a matar do nada e pega a primeira pessoa que cruzar o seu caminho, já um matador em massa dirige sua fúria de uma vez só, num lugar só. Ele mata um grupo único, grupo esse que o oprimiu, rejeitou ou hostilizou. Se pegarmos como exemplo o primeiro Sexta Feira 13, a mãe de Vorhees é uma matadora em massa, já que fez o que fez com quem merecia. Já o seu pequerrucho não, ele se encaixa na categoria de impulsividade, pois sai matando os adolescentes curiosos de plantão, que sempre acabam entrando em Crystal Lake misteriosamente.

Um matador em série usa da emoção para se aproximar das suas vítimas, isso porque eles são incapazes de sentir remorso ou algum outro tipo de sentimento que os deixa mais “humanos”. Um serial killer é manipulador e tem uma coisa chamada de Distúrbio de Personalidade Anti-Social (APD), que costuma apresentar seus sintomas na faixa dos 15 anos de idade. Ou seja, um assassino em série não se adéqua as normas da sociedade e se sente recluso e excluído podendo apresentar agressividade e a falta de remorso previamente dita.

Contudo, os seriais killers mais perigosos são aqueles as quais nós cativamos, aqueles que dobram nossas emoções ao ponto de acharmos impossível pensar que eles poderiam matar até uma mosca, quando, na verdade, têm cabeças guardadas na geladeira. Eles podem ser de um casal apaixonado que sequestra, estupra e mata meninas – como o casal Karla Homolka e Paul Bernardo, a história dos dois virou filme em 2006, assistam, é muito bom -, até um perito em borrifos de sangue da polícia de Miami, como o caso do simpático e gentil Dexter Morgan. Sim! Se você acha que eu estou aqui discorrendo sobre seriais killers à toa se enganou, eu falei que o texto tinha um propósito e eu não menti. Essa “pequena” introdução foi só pra me aquecer, já que o livro a ser resenhado é ótimo e eu vou me empolgar na hora de destrinchá-lo para vocês. Se você acompanha meus posts então, provavelmente, já deve ter lido a resenha escrita por mim do livro Grau26, e do adorável Sqweegel, agora o perfil e o modus operandi mudaram drasticamente e eu não falo só por ser uma fã desse gênero quando afirmo que Dexter Morgan é o assassino mais legal, cativante e interessante da literatura até agora.

Seu nível de carisma beira o de Ted Bundy, um dos assassinos mais temidos dos Estados Unidos que, mesmo sendo condenado à cadeira elétrica, conseguiu reunir uma legião de fãs – todas mulheres, e isso é o mais bizarro já que ele SÓ matava e estuprava mulheres – que o adoravam a tal estágio de irem assistir os seus julgamentos caracterizadas como suas vítimas. O negócio era tão sério a ponto de elas imitarem até os cortes de cabelo, sem falar nas pilhas e pilhas de cartas que Ted recebia na prisão de admiradoras e, auto-intituladas, esposas espalhadas pela América.

Mas estamos falando de Dexter Morgan e não de uma pessoa que existiu, o perito em borrifos de sangue da polícia de Miami é o protagonista da trilogia escrita por Jeff Lindsay, que deu origem a uma das séries de TV mais aclamadas e legais da atualidade. Dexter - A Mão Esquerda de Deus nos mostra o outro lado da mente de um serial killer e não foca somente no fato deles serem considerados monstros pela sociedade, ou serem máquinas de matar calculistas e meticulosas. De fato, Jeff expõe que não somente eles precisam viver em sociedade como também precisam se esconder dentro dela; e aí você fica com a dúvida: como uma pessoa que é desprovida de reações e emoções propriamente “humanas” consegue se infiltrar e passar por normal sem que ninguém desconfie?

Para muitos, fazer amigos, arranjar uma namorada ou ter uma boa relação com os seus colegas de trabalho é fácil, mas não para Dexter. Frio e totalmente lógico, ele depende de sua capacidade de observação e inteligência para apresentar um comportamento tido como normal, mesmo que isso o leve a contar piadas onde ele não vê graça, e até mesmo flertar com a sua supervisora, a detetive Laguerta, quando sexo é a última coisa na qual ele pensa.

E, se ter que lidar com outras pessoas e manter as aparências no trabalho não fosse o suficiente, Dexter tem uma irmã adotiva que também trabalha na polícia como investigadora, Débora Morgan. Ou seja, ele precisa estar em estado de alerta 24 horas por dia. No entanto, o que difere o protagonista da obra dos demais assassinos é o seu modus operandi e o seu código de conduta, ou o “Código de Harry”.

Pra quem não sabe, modus operandi é o modo como os assassinos matam suas vítimas: se eles preferem estrangular, atirar ou picar e fazer estrogonofe depois. Devido a mania de limpeza de Dexter, as vítimas são devidamente sedadas, presas numa maca completamente esterilizada, assim como o resto do local, desmembrados, colocados em sacos de lixo e jogados no mar. Para isso Morgan usa de tranquilizantes fortíssimos, plástico, provas comprometedoras a respeito das atividades da vítima, seu arsenal de facas, lâminas e bisturis, sua lancha e é claro o seu posto na polícia forense de Miami.

É comum para os serial killers levarem troféus ou souvenires de suas vítimas para casa, a idéia é que assim possam admirar o trabalho bem feito e sentirem-se bem consigo mesmos. Com Dexter não é nem um pouco diferente, só que ao invés de colecionar cabeças como faz o também assassino fictício Kevin - da incrível obra de Frank Miller, Sin City - , Morgan coleciona lâminas de laboratório com uma gota de sangue de cada vítima que ele matou. De novo, a mania de organização e limpeza, afinal um pedaço de vidro é muito mais fácil de guardar do que várias cabeças de prostitutas.

Código de Harry

Dexter é filho adotivo de Harry Morgan, um policial de Miami que o encontrou ainda pequeno num container cheio de sangue e pedaços de seus pais. O garoto permaneceu envolto em cadáveres e fluidos corporais durante dois dias e meio, até que foi resgatado. Esse acontecimento é chamado no livro de “Evento Traumático”.

Com o passar dos anos Harry percebeu que Dexter não era como os demais garotos do bairro, inclusive chegando a matar o cachorro do vizinho. Esse comportamento é “normal” em pessoas que apresentam esse distúrbio mental. Geralmente um assassino serial começa matando pequenos animais e vai evoluindo até chegar ao ponto de matar seres humanos. Para o pequeno Morgan, isso era o cartão de boas vindas do seu então intitulado “Passageiro das Trevas”. Sabendo ser impossível lutar contra quem Dexter seria, um dia, no futuro, Harry então bolou um código de conduta para que seu filho adotivo não perdesse o controle e virasse uma besta desgovernada. No caso esse seria o “Código de Harry”:

 

– Só as pessoas que realmente merecem morrer seriam escolhidas, no caso, estupradores, pedófilos e coisas do tipo.

– Sempre limpar as cenas do crime de modo que ele nunca fosse identificado ou pego. E como o próprio Dexter diz “Limpar tudo. Não deixar pistas”.

– Tomar cuidado, tanto na hora de matar quanto na hora de esconder quem ele realmente é.

– E por último, não se envolver emocionalmente com as vítimas, para que decisões erradas não sejam tomadas.

Basicamente, o que Harry fez, foi dar a Dexter um direito que todos nós queremos, o de fazer justiça com as próprias mãos. Ou, como ele mesmo justifica “Tem tanta gente que merece morrer, Dex...”. E o fato do pequeno Morgan seguir essa regra, o transforma de assassino frio e cruel, em um anti-herói irônico e com um senso de humor ácido e irresistível.

A mão esquerda de Deus

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Tradução da legenda: Um serial killer com um coração... Fique feliz que não é o seu.

Perito de dia, assassino de noite. Essa era a rotina de Dexter, trabalhar em cenas do crime, conviver em sociedade, matar alguma pessoa. O livro começa com Morgan assassinando o padre Donovan – precisa realmente dizer o que a vossa santidade fez? Acho que você já sabe do que eu estou falando... - e o despejando no mar. Até aí a vida de Morgan estava sem grandes problemas, o que nos dá total liberdade de começar a conhecer esse curioso lobo que veste pele de cordeiro, e que tem um passageiro um tanto quanto interessante no banco de trás do carro que ele chama de Cérebro.

Irônico, sarcástico e realista, Dexter pensa como uma máquina, e sabe exatamente como agir, sabe como falar e com quem falar. Ele engana tão bem que, por vezes, passa a ser aquele tipo de pessoa conformista e nem aí pra vida, como também passa a idéia de que é extremamente gentil e bem humorado. De fato, ele é alegre, mas de um jeito bem diferente. O interessante sobre como Morgan se relaciona com os demais a sua volta, é que ele na verdade estuda as pessoas, estuda o comportamento delas, afinal elas são guiadas por seus sentimentos e ele, convenhamos, não possui nenhum.

“Eu sou uma pessoa inesgotável. Tentei seguir plano de Harry e me envolver com outras pessoas, ter relações e até (nos momentos mais idiotas) gostar de alguém. Mas não funciona. Tem alguma coisa errada ou faltando em mim.”

No entanto, as coisas mudam quando um novo assassino em série invade a quente Miami matando prostitutas e deixando seus pedaços espalhados por toda a cidade. O jeito de matar é o mesmo e Dexter começa a ser perturbado todas as noites com sonhos estranhos e que sempre tem alguma conexão com a próxima lembrancinha deixada pelo mais novo amiguinho do perito. Sim, pela primeira vez em anos, o pequeno Morgan não se sente sozinho em sua monstruosidade.

Continuar a contar a história sem dar spoilers é bem difícil, mesmo porque Dexter - A Mão Esquerda de Deus é o tipo de livro que te prende até não poder mais, ele te drena e quando você percebe já amanheceu o dia e você está firme e forte virando páginas e comendo letras atrás de letras. Sem nem se preocupar com o horário ou com o fato de que tem que ir trabalhar, essa parte da sua vida te frustra porque te obriga a parar de ler. Vai por mim, não é legal.

Jeff Lindsay consegue te fazer se apaixonar por Dexter Morgan, te faz querer ser amigo dele e apoiá-lo nos momentos de dificuldade, ele é exposto até a alma para nós e mesmo com o seu “defeito” você se sente atraído por ele. Você acompanha e presencia seus momentos de dúvida, suas fraquezas e conhece cada vez mais o funcionamento de um ser humano tão intrigante. É como se fosse amor à primeira vista. A construção dos personagens também foi muito bem feita, não é só Dexter quem merece a glória. Só porque ele é o protagonista não significa que ele tem que ser o cara mais legal do livro todo. Vocês obviamente se lembram mais do Chapeleiro Maluco e do Gato de Cheshire do que da própria Alice, e eu não estou me referindo somente a adaptação cinematográfica feita por Burton.

Os demais componentes do enredo da obra de Lindsay tem suas características próprias: LaGuerta é a detetive manipuladora e latina que tenta, a todo o custo levar Morgan para a cama – a passagem do cubículo é memorável, tanto pela sequência de acontecimentos, como pela ingenuidade de Dexter a respeito de certas coisas -, Deborah é a policial durona e, ao mesmo tempo, frágil, que tenta a todo o custo ser promovida e ter reconhecimento que merece; e o Sargento Doakes odeia a tudo e a todos – e eu o odeio de volta.

Uma coisa que eu achei muito legal a respeito da narrativa é que, mesmo com as descrições, você se sente vendo tudo de dentro da cabeça de Morgan. Tá certo que é tudo escrito em primeira pessoa, mas a sensação de estar no interior do cérebro de Dexter e ver todas as sinapses neurais acontecendo só te afunda mais e mais na trama, e, consequentemente, te faz gostar cada vez mais do protagonista.

A saga de Morgan tem, até o prezado momento, cinco livros, dos quais somente três – Dexter - A Mão Esquerda de Deus, Dexter no Escuro e Querido e Devotado Dexter - foram publicados nas terras de Brasil. No entanto, a quinta obra Dexter is Delicious ou Dexter é Delicioso, numa tradução livre, chega as livrarias americanas em setembro desse ano e só uma dica, o enredo tem elementos de canibalismo. Fica ai o possível trocadilho com o título.

Dexter - A Mão Esquerda de Deus é uma obra pra quem gosta de uma excelente história policial recheada de humor negro e ácido, com pitadas de críticas e alfinetadas a uma sociedade “contemporânea” que preza pelo normal e por tudo aquilo que esteja “dentro dos padrões” e te faz pensar que por vezes os monstros somos nós mesmos.

 

Título: Dexter - A Mão Esquerda de Deus (Darkly Dreaming Dexter)

Autor: Jeff Lindsay ou Jeffrey P. Freundlich

Nota: 10

 

Assassinos em Série | Jeff Lindsay | SerialKiller.com.br | Serial Killer

 

P.S. Pessoinhas lindas do meu coração, eu estou lendo os mangás do Desafio LOL, por favor sejam pacientes porque dessa vez é muita coisa pra ler. Obrigada pela compreensão e paciência, vocês são lindos.

9 Comentaram...

... disse...

Eu adoro Dexter! Vi só a primeira temporada, em uma semana eu acho, e não tive mais tempo de assistir. =/
Vou tentar comprar/baixar o livro, fiquei curiosa.

Ótimo texto Bia, parabéns! ;D

Chaves Papel disse...

Ótimo texto, pensei até que era o Dexter contando a história!

O seriado é sensacioanal!
O livro parece ser também, até pq o seriado é baseado nele.

Só uma pergunta, a série segue a risca os livros? A primeira temporada pelo que parece é na verdade o primeiro livro, os demais são assim também?

Chaves Papel disse...

Só mais uma coisa, o livro "A Mão Esquerda de Deus" que foi sorteado parece ter sido "inspirado " nesse (Dexter)!

Fk disse...

Vi todas as temporadas e to começando o livro
até agora ja virei um fã de Dexter
e adorei a resenha e principalmente a explicação de serial killer
otimo post

Andoras disse...

Primeiramente...Parabéns pelo post! Sobre Dexter, a última temporada foi surpreendente; estou muito ansioso pela próxima. Em "não é só Dexter quem merece a glória" concordo com você, pois curto muito o (Vicent...Vince) Mazuka. Valeu!!! Abraços!!! Até mais!!!

Mila disse...

O mais impressionante pra mim é a fidelidade que a série de tv tem com o livro. Ao ler eu vejo as cenas claramanete... isso pra mim é um problema... hehehe... Acho o personagem fascinamente, assim como o Dr. Lecter... vc passa a gostar e torcer pelo "bandido"... e isso é sensacional!!!
Parabéns pelo texto e pela escolha!

Felipe Storino disse...

Excelente texto, instiga a gente a querer ler o livro sem dar nenhum spoiler. Fora a introdução falando dos serial killers, muito bom. Eu acompanho a série e tenho vontade de comprar os livros há algum tempo, mas depois dessa resenha a vontade aumentou ainda mais. Aliás, esse foi o único defeito do texto, vai me fazer gastar mais dinheiro no Submarino...hehe!!!

Parabéns!

@edenfall disse...

O Autor esqueceu de informar o nome do filme do casal: Karla.

Anônimo disse...

Euu amo Dexter! Meu presente de natal foi as 3 temporadas dele! Ja vou comprar todos os livros menos os que nao tem no brasil! Mais e muito show eu recomendo a todos, Perfeito serial killer

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