terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Avatar FiliPêra

Primer

 

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O cinema independente chutou a porta do cinemão hollywoodiano no fim da década de 80 / início da década de 90, com uma série de filmes, dos quais se destacaram Sexo, Mentiras e Videotape, Cães de Aluguel e El Mariachi. Uma coisa esses filmes tinham em especial: eram independentes de verdade, tinham diretores revirando o mundo em busca de grana para torna-los reais, lançamentos em circuitos mínimos, boca-a-boca e geralmente botavam a cara no mundo no Festival de Sundance, ainda hoje o maior lar do cinema independente americano.

De lá para cá as coisas mudaram, provavelmente por causa desse chute. Cinema Independente virou uma grife usada por grandes estúdios para mostrarem que também sabem fazer coisas sem os orçamentos milionários que vemos por aí. É mais ou menos como a chamada Consciência Ecológica de hoje, que está em todo o lugar, mas poucos parecem conhecer a essência do que ela representa, se preocupando somente com o status de bem-feitor que ela proporciona.

Dessa idéia, os mega conglomerados de cinema criaram pequenos estúdios, as chamadas divisões de arte. Alguns desses pequenos estúdios atendem pelo nome de Screen Gems (da Sony), Warner Independent Pictures e Picturehouse (os dois últimos da Warner, recentemente fechados). Com essas mudanças, independente adquiriu um novo sentido em definitivo, e os filmes com essa classificação deixaram de ser feitos quase na base da guerrilha, e passaram a ser produções com pouca grana de grandes estúdios. O pior fator desses novos tempos dizem respeito a interferência de gente como Alan Horn ou os próprios Irmãos Weinstein em produções que deviam ser verdadeiramente independentes, mas em sua essência não eram.

A boa notícia é que ainda existe gente que tá pouco ligando pra essas coisas, e fazendo filmes que vão contra todas as chamadas regras do sucesso. E o melhor: obtendo sucesso sem elas! Primer é um exemplo clássico pra ilustrar que casos assim existem em dias confusos como os de hoje. A própria história da produção do filme é tão mitológica quanto a famosa fábula do nerd que saiu de trás do balcão de uma locadora direto pra cadeira de diretor de clássicos como Pulp Fiction.

Shane Carruth era um matemático entediado com a própria profissão. Resolveu que o caminho para sair do marasmo era o cinema. Com essa idéia 180º na cabeça, ele levou três anos para roteirizar, produzir, atuar, dirigir, editar, compor trilha e lançar Primer, sua estréia no mundo dos filmes. Os gastos dele com a produção nos leva a outro icônico símbolo do cinema independente: foram míseros 7 mil dólares, usados somente no aluguel das câmeras, e na compra e revelação de alguns filmes 16 mm… os mesmos gastos de Robert Rodriguez no seu western latino, El Mariachi. Após ver seu filme devidamente selecionado em Sundance, Carruth arruma grana emprestada com um amigo e faz uma cópia 35 mm… e foi em Sundance que Primer deslanchou, e alcançou um status cult rapidamente.

Primer é um filmaço, mas que nunca faria sucesso no circuito mainstream. A própria linguagem usada no filme, e o formato louco que Carruth tratou de colocar nele, respondem essa questão muito facilmente. Primer é um quebra-cabeça complexo o bastante para dar um nó cego no seu cérebro, provocar suicídio coletivo nos seus neurônios, fazer sua massa encefálica escorrer pelas suas narinas; tudo isso sem esforços mirabolantes.

Não por acaso rolaram diversas comparações com outro campeão de Sundance: Pi, do genial Darren Aronofsky. Mas, se em sua forma os dois filmes são parecidos - tratam de ciência, não fazem concessões ao expectador ou se põe a explicar tudo o que tá rolando na tela - em sua essência os dois são fundamentalmente diferentes. Pi trata de paranóia, de vícios, de isolamento, de loucura, e usa a matemática para expressar isso com perfeição. Já Primer é ciência pura, ficção científica em sua melhor forma, com alguns elementos de 2001, e filmes-pesadelo de David Lynch. Se Pi tende a ser quase místico, principalmente em seu final quase metafísico, Primer é pura ciência e ponto!

 

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Já em seus primeiros momentos, Primer te deixa tonto. São minutos e minutos de diálogos científicos rolando numa garagem, num ritmo que deve assustar até o cinéfilo mais acordado - lembra bastante aqueles filmes franceses histéricos e verborrágicos -, e que só devem fazer sentido pleno pra alguém que ama Exatas. No centro da trama, quatro amigos. Eles estão bem empregados, mas montam uma pequena empresa bem no estilo dos pioneiros da computação, e se dedicam a uma criação própria, mesmo que pelo rumo das conversas, você chegue a conclusão que eles não saibam exatamente para onde estão indo. Para obterem sucesso, eles não medem esforços, e lançam mão de tudo quanto é recurso que está a disposição, como o gás de uma geladeira, e pedaços de ferro que encontram.

Dois dos amigos pulam fora do projeto, e Aaron (interpretado pelo próprio Carruth) e Abe, sabendo que estão perto de algo grande, decidem continuar. Ao colocarem a máquina semi-pronta em testes dentro de um compartimento de ferro, eles chegam a resultados aparentemente bizarros: a máquina gerou proteína de um fungo. O lance é que a proteína gerada em cinco horas levaria cinco anos para ser gerada em condições normais. O que isso quer dizer? Bom, esse é apenas um dos mistérios intrigantes do filme, que resolvida essa questão, vai mergulha-lo em um absurdamente viajante quebra-cabeças.

A própria narrativa do filme não faz concessões. Carruth dá uma de J. J. Abrams e não faz a mínima questão de explicar o que tá rolando na tela, cabendo ao espectador reunir todas as pistas na sua cabeça e formular suas próprias teorias, que com certeza vão de encontro às teorias que a pessoa do seu lado formulará. Como único ponto narrativo comum, está uma narração em off, aparentemente feita por Aaron após a conclusão de todas as questões levantadas no filme. E vai logo um aviso: não pense que o fim do filme fecha todas as questões pendentes na cabecinha confusa… muito pelo contrário, você terá que ver tudo novamente, reunir com o que sabe após ver o filme completo, e tentar chegar a uma conclusão definitiva.

Uma dica? Viagens no tempo… de forma inédita… que envolvem máquinas do tempo dentro de máquinas do tempo…

 

A idéia de Carruth ao criar Primer diz respeito a um relato que ele leu sobre grandes invenções. Em entrevista em Sundance, ele afirmou que o filme foi como uma versão moderna dessa experiência - daí a garagem, e os jovens - lembrando gente como Bill Gates, Steve Jobs e Steve Wozniak. Carruth vai além, e deixou claro que Primer foi uma versão filmada dele próprio fazendo a sua descoberta historicamente importante.

Surpreendentemente o filme se sai bem em quesitos técnicos. Apesar de não possuir qualquer tratamento técnico especial - além da ausência de efeitos computadorizados, coisa cada vez mais rara no mundo sci-fi - o filme possui certas peculiaridades interessantes. Sua coloração amarelada e fortemente verde, e com uma predominância de tons variantes dessas cores, dá um sentido que se une a temática científica do filme. Os enquadramentos são estáticos, lembrando o formato incômodo de muitas séries de TV. É o estilo perfeito para o caminhão de diálogos poderosos que os personagens despejam a todo o momento. A edição contrapõe tudo isso e é rápida, acompanhando a verborragia de Aaron e Abe, chegando por vezes a ser insanamente difícil de acompanhar.

 

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Após o final icônico e mais complexo que a arquitetura de um fractal infinito, é fácil ter a certeza que Primer é um filme inteligente, recheado de ousadia e com um roteiro ótimo. Mas não é para todos, por mais batida e aparentemente metida que seja essa afirmação. É como um Donnie Darko com foco mais amplo na questão científica. É necessário mergulhar de verdade na experiência que é ver o filme, formular teorias, assistir duas ou três vezes, discutir com amigos e chegar a alguma conclusão.

Para quem acha que o futuro do cinema está somente no 3D, em orçamentos mais caros que os gastos de luz de uma mega cidade, em pirotecnia; e não em roteiros inteligentes, Primer pode ser um lixo sem pé nem cabeça, uma viagem na maionese. Lamentável…

 

Primer (EUA, 2004)

Direção: Shane Carruth

Duração: 78 minutos

Nota: 9

9 Comentaram...

Anônimo disse...

Será que esse filme aparece no anarquia? Ia ser ótimo!\o/

Anônimo disse...

Para quem já viu e quiser tentar entender:
http://www.freeweb.hu/neuwanstein/primer_timeline.html

m_s_mito disse...

Deveria aparecer no Anarquia mesmo! Estou com água na boca pra ver o filme!!! *-*

Panthro Samah disse...

Baixando!

Pablo Reis disse...

cara esste filme é muito bom, ja baixei e assitir agora vou ter q assistir novamente com timeline na mão ^^

Priscila disse...

*_* esse filme eh lindu,engracado q ontem eu fiz um post sobre Donie darko que eh sobre a teoria do espaco e tempo,mas os criticos n perceberam isso. OO

RodolphoZippo disse...

Filme muito bão. Até que enfim assisti com a futura sra. Zippo e fiquei de boca aberta. Isso que faz falta no cinema atual, uma história de qualidade. Eu só achei o final muito apressado, te joga todas as informações de forma acelerada e deixou tonto e me perguntando: WTF??
Vou ter que assistir dnovo para guardar toda a história. Excelente resenha

Valter Aczel disse...

Estou ansioso para ver este filme.
Só que estou com um problema. Baixei o filme pelo Anarquia Nerdo, mas não rola o audio. Já verifiquei os codecs mas está tudo ok. Inclusive, tanto Média Player Classic quanto o WMP não dão erro de codec.
Alguém pode me ajudar?

Anônimo disse...

quando ele volta e vem e o ele volta e vem e vai e o ele vai e vem o vai vem el vai e volta vem

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