segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

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Glaspost #9 - A Fortaleza Vermelha

 

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Crédito da Foto

Abandonar o Kremlin é abandonar Moscou. E se eu abandonar Moscou ela será incendiada pelos nazistas, e eles ganharão a guerra

Josef Stalin

A vida dentro do Kremlin sempre foi envolta em um mistério impenetrável

Harrison Salisbury, jornalista e escritor americano

O Parlamento russo hoje, não passa de um bando de marionetes que só obedecem as instruções do Kremlin

Garry Kasparov, campeão mundial de xadrez

 

Um avião voa de Khodynka - o chamado Aeroporto Central -, no centro de Moscou, em direção a um destino secreto. Entre seus passageiros está o Alto-Comando Militar Soviético, e todos os integrantes do Politburo; os todo-poderosos do país. Em resumo, gente do calibre de Beriya, Molotov e Voroshilov, que a décadas mandam no país. Eles chegam até o aeroporto por meio de uma rota secreta do metrô de Moscou. Um trem especial os esperava à horas na estação "Praça Sverdlov", bem embaixo do Kremlin, e os conduziu por uma rota rápida até Khodynka, passando pelas estações Mayakovskaya - Byelorruskaya - Dínamo - Aeroporto. Tal linha é fechada frequentemente para que os integrantes do Poder Soviético pudessem se deslocar sem problemas pela capital.

No caso de o aeroporto de Khodynka estar sob ataques, visto seu imenso tamanho, as autoridades poderiam fugir usando o aeroporto de Podlipki, onde uma unidade denominada 1º Força-Tarefa da Aviação Civil fica estacionada continuamente. Tal destacamento é na verdade a frota oficial para vôos governamentais. Ela está sempre de prontidão, sendo inclusive usada para emergências. Caso a situação esteja realmente feia, podem ser usados um dos outros grandes aeroportos civis de Moscou, como o Sheremetyevo.

As tropas da recém-organizada OTAN se aproximam de Moscou, e Stalin resolve que é melhor ir para um lugar mais seguro. Ao decolar da pista, o avião ruma para sudeste, em direção ao Posto de Comando Supremo, construído poucos anos depois do fim da II Guerra, já com Stalin tendo em mente que suas aventuras militares poderiam trazer problemas para a sua integridade física. Após uma acentuada curva, o avião ruma para Jiguli, pousando num aeroporto próximo, o Kurumoch, localizado na cidade de Samara. O Kurumoch, juntamente com a própria cidade de Samara, imediatamente seria fechado em caso de guerra.

A escolha dos Montes Jiguli é acertada. O local, segundo geólogos soviéticos, é um bloco de granito incrivelmente gigantesco, com 80 quilômetros de comprimento por quarenta de largura, com alguns milhões de toneladas. Ademais, Jiguli fica à centenas de quilômetros da fronteira cazaque-soviética, é banhado pelo Volga, além de ser guarnecido por uma cadeia de montanhas densas e fechadas, tornando virtualmente impossível se chegar até lá a pé. O clima é igualmente potente, sendo que na maioria do ano cai uma geada intensa e poderosa. A vegetação limita-se a ser uma mata virgem e claustrofóbica. As encostas das montanhas que desembocam no imenso Rio Volga, são como pêndulos rochosos, o que dificulta a incursão de forças especiais estrangeiras (isso considerando que elas cheguem perto de Jiguli), ou a aproximação de qualquer outra unidade militar.

De vez em quando pode-se ver uma clareira ou outra nos Montes Jiguli, mas caso se consiga chegar mais perto, é fácil notar a presença de imensas casas particulares, pertencentes aos mais poderosos integrantes do poder soviético (hoje, russo), todas guarnecidas por divisões da Segurança do Estado e do Exército. Mas a verdadeira construção do local, o Posto de Comando Supremo (PCS), é bem mais complexa que algumas mansões com proteção especial.

O PCS possui um sistema de metrô completo, boa parte dele construído por prisioneiros, imediatamente mortos após o término da obra. Também existe por lá uma infinidade de túneis, abrigos anti-armas de destruição em massa, armazéns, e salas de reunião; tudo para alojar os que comandarão o Exército Vermelho em caso de uma guerra total. Complementando a segurança, ficam permanentemente no local, uma divisão de Defesa Aérea - com esquadrões de caças interceptadores, e baterias anti-mísseis -, e uma divisão do KGB (hoje FSB). Não é nem preciso dizer que tal lugar é completamente fechado para estrangeiros, assim como as cidades ao redor, como é o caso de Kuibyshev, onde parte do governo soviético ficou sediado na II Guerra.

Mas, para sorte de Stalin - e de todos os outros líderes soviéticos -, tal medida, a ser tomada em tempos de guerra, jamais foi necessária. Ele jamais colocou os pés no Posto de Comando Supremo de Jiguli, o que significa que jamais abandonou o centro do poder russo-soviético. Por todos os seus quase trinta anos de mandos e desmandos, em todas as camadas da população soviética, ele permaneceu naquela que é considerada a fortaleza mais possante da Europa: o Kremlin.

 

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Kremlin, em russo, quer dizer fortaleza. Muitas cidades russas têm seus próprios kremlins, mas com certeza, o mais conhecido deles é o centro de poder político e econômico da maior nação do mundo. Ele fica no centro de Moscou, junto a Praça Vermelha, ocupando uma área de cerca de 30 hectares - ou 300.000 km². Seus muros - com 19 metros de altura, cerca de 2,5 km de extensão e 6,5 metros de espessura - o tornaram praticamente impenetráveis por séculos a fio, tendo suas 20 torres capacidade de defende-los completamente. Detalhe: após terminado, ele jamais foi conquistado!

Na parta exterior do Kremlin, como que o abraçando, está a Praça Vermelha. Construída no final do século XV, após terminada a construção dos muros exteriores do Kremlin, a praça por muitos anos serviu apenas como uma área aberta e pública para que se pudesse fazer a defesa da Fortaleza mais facilmente, impedindo dos inimigos de esconderem nas proximidades. Em 1812 foi feito um fosso separando o Kremlin da praça, e aumentando invulnerabilidade da Fortaleza. Ao contrário do que se pensa geralmente, a Praça Vermelha não tem esse nome devido a cor dos muros externos do Kremlin, ou a cor do Comunismo, mas sim porque a palavra russa Krasnaya (vermelho), é também um sinônimo de bonito, termo que logo foi associado a Catedral de São Basílio, localizada à sudeste da Praça. Tal Catedral foi construída entre 1555 e 1561, durante o reinado de Ivan, o Terrível. Diz a lenda com cara de verdade, que após ver a Catedral pronta, Ivan perguntou ao arquiteto dela, Postnik Yakovlev, se ele poderia fazer algo mais bonito. Como ele respondeu que sim, teve os olhos arrancados.

Outro importante monumento da Praça Vermelha é o Mausoléu de Lenin. O lugar já teve filas diárias de 10 mil pessoas esperando pacientemente para ter um vislumbre da múmia do Líder da Revolução Russa. O Mausoléu foi durante boa parte do século passado, uma espécie de Meca do Comunismo, em que milhões peregrinos políticos de outros países e da própria União Soviética passaram lá.

No dia 23 de janeiro de 1924, dois dias depois de morrer, o corpo de Lenin foi embalsamado pelo patologista Alexei Abrikosov. Três dias depois já existia um projeto para a construção de um mausoléu, feito de madeira, localizado junto aos muros do Kremlin. Cinco anos depois de pronto, foi decidido pela cúpula soviética que o corpo de Lenin deveria ficar num lugar mais duradouro e definitivo, que substituiria o mausoléu de madeira. Em outubro de 1930 fica pronto um mausoléu de mármore e granito, onde a múmia de Lenin está até hoje. No subterrâneo do Mausoléu existe um posto avançado do Centro de Tecnologias Biológicas e de Medicina (CTBM) da Rússia. É lá que, a cada um ano e meio são feitos os trabalhos de conservação periódica da múmia, através de diversos processos químicos e biológicos que permitirão conservar a múmia por tempo indeterminado, de acordo com as palavras do atual diretor do Centro, Valeri Bikov.

 

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Dentro dos muros do Kremlin existem cerca de uma dúzia de palácios e igrejas, que começaram a ser construídos três séculos mais tarde, após ser lançado a fundação do que seria mais tarde o Kremlin. Vários desses palácios - e consequentemente de seu estilo - começaram a ser erguidos por volta do ano 1450, por Ivan III, que trouxe diversos arquitetos da Itália para realizar o trabalho. Tais arquitetos usaram vários os estilos russos e os unificaram, transformando a arquitetura russa numa das mais ricas do mundo.

Logo na entrada do Kremlin está a Catedral da Assunção, que é o principal monumento religioso de lá. Foi embaixo de suas abóbadas de ouro, e defronte às suas pinturas renascentistas que todos os czares foram coroados. Em um lugar especial, onde hoje reza o Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, está o trono de madeira toda esculpida que um dia pertenceu a Ivan III. Nas capelas adjacentes estão os túmulos de todos os patriarcas ortodoxos anteriores a Era Soviética.

Perto da Catedral fica um campanário octogonal de mais 80 metros de altura, que pertenceu a Ivan, o Terrível. O campanário ao lado possui 21 sinos, sendo o maior deles responsável por tocar três vezes quando um czar morria. Na parte exterior desse campanário está o Sino do Czar, o maior do mundo, com 200 toneladas. Ele jamais foi tocado, pois um pedaço seu se desprendeu, depois receber água fria após ser queimado por um incêndio.

Um dos mais imponentes monumentos do Kremlin é o Arsenal, onde hoje funciona o Museu das Armas. É lá que estão as armas usadas pela Guarda do Kremlin, e grande parte dos incalculáveis tesouros acumulados pelos czares - especialmente os Romanov -, como os famosos ovos Fabergé, admirados no mundo todo pela raridade e perfeição com que foram feitos. Alguns desses ovos possuem trens que se movem caso se dê corda, ou réplicas da coroa dos czares. Dentro do Museu das Armas também está a coleção de jóias e roupas de Catarina, a Grande, assim como o cetro usado na coroação dela, com um diamante de 190 quilates na ponta, dado por seu amante, o Conde Orlov, que o tirou do olho de uma estátua de um templo hindu. Lá dentro estão também os tronos dos czares, vários deles de marfim esculpidos com várias pedras preciosas. O de Pedro, o Grande, tinha um adereço especial: um compartimento para que sua irmã pudesse lhe dar conselhos secretamente.

 

Hall de São Jorge

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Nas dependências do Kremlin também existe o Palácio Terem, construído nos anos de 1635 e 1636, por ordem do czar Mikhail Romanov. O Terem é uma construção com o teto vermelho e branco, 11 cúpulas douradas, além do quarto do czar, que só ele, sua mulher, e seus servos cegos podiam adentrar. Depois do Arsenal, a mais importante construção é o Grande Palácio do Kremlin, construído a pedido do czar Nicolau I em 1837. Ele conta com 700 salas e mais outro tanto de halls cerimoniais. O Hall de São Jorge, por exemplo, tem paredes adornadas dos nomes de militares em ouro, e seis candelabros com 3 mil lâmpadas.

Várias tradições e lendas cercam o Kremlin e suas torres. A mais conhecida, a Spasskaya, de frente pra Praça Vermelha, foi uma das primeiras partes construídas dele. Mas, apenas por volta do ano de 1500 teve o famoso relógio instalado. No tempo dos czares a torre tinha uma importância ainda maior: se você fosse pro Kremlin, você tinha que passar pela entrada dessa torre, ou ao menos se curvar perante ela 50 vezes. Também era possível gratuitamente entrar nas dependências do Kremlin por ela, vendo como era farta a vida da nobreza russa.

Também existem várias lendas relativas a fantasmas e aparições sobrenaturais por lá. As pessoas dizem que dentro dos muros vermelhos e das paredes internas do edifício vivem os fantasmas de todos que governaram o país do Kremlin: Lenin e Ivan, o Terrível são apenas dois nomes da lista. Mas as lendas de aparições não param por aí. Dizem que sempre que Ivan, o Terrível aparece, ele usa uma nuvem vermelho-sangue brilhante, e que Lavrenti Beriya (antigo chefe da KGB), de vez em quando surge para roubar turistas. Stalin também não surge de vez em quando, sempre fazendo a temperatura do local diminuir drasticamente.

 

O Kremlin, como símbolo de poder, acaba por receber emblemas que mostram quem governa a Rússia naquele momento. Tal emblema é facilmente identificável através de um monumento que fica imponente no alto das principais torres do Kremlin: Spasskaya, Troitskaya, Borovitskaya, Nikolskaya. No ano de 1621 essas torres foram decoradas com o símbolo da Dinastia Romanov - que governou o país por três séculos: a águia de duas cabeças, que mais tarde se tornou a base para o brasão de armas russo. As águias eram de ouro e cobre e ficaram por lá mais de 300 anos. Somente em 1935, após a Revolução Comunista, é que elas foram substituídas pelas estrelas vermelhas que repousam lá em cima até hoje.

 

Ovos Fabergé

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A idéia do Partido Comunista da União Soviética era fazer uma substituição imediata das águias, mas como tudo se mostrou caro demais, o plano foi postergado por quase duas décadas. O Instituto Central de Hidrodinâmica foi o órgão encarregado de sua construção, sendo o pintor e projetista F. Fedorovsky, o chefe. O plano inicial previu a construção de quatro estrelas vermelhas de aço reluzente, com os símbolos da foice e do martelo ao centro, cada uma delas iluminada por 12 refletores potentes. Após sua construção, no dia 23 de outubro, as estrelas ficaram expostas no Parque Central da Cultura e Descanso, para apreciação popular, ao mesmo tempo em que eram terminados os guindastes sob medida para colocar cada estrela na sua respectiva torre. No dia seguinte começou-se a instalação.

O problema é que após mais de um ano de chuva e sol, as estrelas de aço estavam turvas e foscas. Exatamente por isso, em maio de 1937, é decidido substituir as estrelas de aço por estrelas de vidro-rubi (uma mistura de vidro com cloreto de ouro) de uma tonelada cada, além de adicionar uma estrela na torre Vodovzvodnaya. Essas estrelas sempre brilham, sendo necessárias apenas uma limpeza e uma lustragem anuais. Também foi mudado seu sistema de iluminação, passando a contar com luzes internas - que esquentam muito, tornando-se necessária a instalação de um sistema de resfriamento em cada estrela -, além de torna-las resistentes a ventos de até 200 km/h, fazendo com que elas girem facilmente de acordo com a direção dos ventos. 

 

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A ordem para a construção do que se tornou o Kremlin muitos anos depois, partiu de Yuri Dolgoruky, o fundador de Moscou, em 1156. Nessa época, a Fortaleza não passava de um amontoado de estacas com um fosso em volta. Nos quase 200 anos seguintes não passou disso, sendo no máximo seus fossos alargados. Em 1339 são erguidas as primeiras torres. Dmitry Donskoi, em 1367, destrói tudo e reconstrói em pedra calcária branca, num modelo quase tão grande e ornamentado quanto o atual. Mas é Ivan III, em 1495, que dá ao Kremlin - e ao centro de Moscou - a forma como ele tem hoje, terminando a construção dos muros e fazendo uma praça em frente, para que os guardas da torre pudessem avistar os inimigos ao longe.

Até esse momento, a idéia de fazer algo como o Kremlin era unicamente militar. A nação russa vivia em guerra com diversos territórios, e povos aguerridos e unidos, como os polacos e os lituanos, invadiam constantemente os territórios russos, sempre vastos. À partir do século XVII - após o início do regime dos czares - o Kremlin começou a ser ornamentado e foi ganhando as formas que tem hoje.

No século XIV, o Kremlin ajudou os monarcas russos a resistirem a duas tentativas de sítio pelos lituanos, e no século seguinte foi a vez dos tártaros e mongóis tentaram, mais uma vez sem qualquer sucesso. Após conseguirem expulsar os tártaros - que hoje são uns dos povos que compõe a nação russa - os governantes passaram a depositar mais confiança no Kremlin, o utilizando como casa da moeda, prisão de segurança máxima e palco de reuniões importantes. Após o período de guerras ter acabado, e o Império mergulhar numa paz duradoura, os czares levantaram suntuosas moradias para si próprios, como a de Kolomenskoye, na região sudeste de Moscou.

Outros czares, amantes da cultura da Europa ocidental, foram ainda mais longe. É o caso de Pedro, o Grande, que em 1703 faz uma capital inteiramente nova e moderna, longe da soturna Moscou. Trata-se de São Petersburgo, que serviu como uma janela russa para a cultura ocidental. Mas o mesmo Pedro não se viu satisfeito e foi ainda mais longe na sua megalomania, construindo Peterhof, que basicamente é um conjunto de palácios belíssimos e suntuosos, próximo de uma cidade com o mesmo nome localizada nas periferias de São Petersburgo (20 km a Oeste e 6 Km a Sul), com apenas 86 mil habitantes. Basta dizer que as duas cidades imponentes, São Petersburgo e Peterhorf, são uma das mostras mais profundas da complexidade e da beleza da arquitetura artística (existe esse termo? Sei lá, mas agora já foi...) russa no período pré-revolucionário (mas vou parar por aqui, pois só Peterhorf já merece no mínimo um post inteiro).

 

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Após os exageros de Pedro, o Grande - muito bem construídos, que fique claro -, o fato é que o Kremlin, a velha fortaleza intransponível, e a própria Moscou, foi abandonada pelos czares que subiram ao trono posteriormente. Agora os reis não precisavam mais de fortalezas para resistirem a invasores, preferindo construir obras lindíssimas como o Palácio de Inverno, com suas janelas imensas, e sem a necessidade de qualquer guarnição especial contra invasões. Alguns czares chegavam a ter residências oficiais em Paris, tamanho era seu apreço pela cultura ocidental. E isso não diminuiu nem mesmo com as Invasões Napoleônicas (mais sobre isso AQUI, no Glaspost sobre os Cossacos).

Por esse motivo, os governos eram cada vez mais liberais, ajudando o fato do país estar mergulhado na pobreza, e querendo diminuir o atraso em relação aos Ocidentais. Em 1860, Alexandre II lança um pacote de reformas definitivo nas leis do país. O que mudou principalmente foi a questão agrária. Se antes os camponeses eram impedidos de possuir qualquer pedaço de terra, ou mesmo de se mudar, a exemplo das leis da Era de Edo, no Japão, com as reformas de Alexandre as coisas mudaram. Agora qualquer habitante poderia emigrar a hora que bem entendesse, sem qualquer restrição, bastava que eles chegassem na fronteira. Com isso, anualmente, cerca de 300 mil russos iam a Alemanha ajudar nas colheitas e garantir uma renda extra.

Da mesma forma, estrangeiros eram integralmente aceitos no Império, sem qualquer restrição. Não apenas em trabalhos sem importância, mas em toda espécie de cargos públicos. Muitos estrangeiros ocuparam cargos-chave na polícia, no Ministério das Relações Exteriores, no Ministério da Economia... a própria Catarina, a Grande, czarina déspota, era alemã, e prima de monarcas suecos. Ela subiu ao trono em 1792, depois de dar um golpe de estado e tirar o próprio marido do trono, o czar Pedro III. Catarina era uma intrusa na Dinastia Romanov. Essa Dinastia ainda foi a responsável pela construção de Tsarskoye Selo (Vila do Czar), que é uma cidade próxima a São Petersburgo, com palácios tão belos quanto os ornados por Pedro em Peterhorf.

Essa entrada em massa de estrangeiros traria vantagens para os comunistas séculos depois. Com um monte de comunistas fanáticos oriundo de outros países europeus e asiáticos em seu território, Lênin e Simon Aralov - primeiro chefe da GRU, a espionagem militar soviética - os mandam de volta a seus países. Lá, eles se tornam funcionários de empresas importantes, ou oficiais os exércitos de nações que futuramente seriam inimigas da URSS... e passariam informes preciosos gratuitamente para os russos.

Tsarskoye Selo marcou o fim da Dinastia Romanov, que governou a Rússia por oito gerações - 1613 a 1762. O Palácio Alexandre, que fica na cidade, foi a primeira prisão de toda a família de Nicolau II. Logo depois eles ficariam presos na Casa do Governador, em Tobolsk, para serem transferidos para a Casa Ipatiev, em Ekaterimburgo, onde todos seriam mortos no dia 17 de julho de 1918.

Com os comunistas chegando ao poder, o Kremlin voltou a ser a sede do governo. Lenin previu que precisaria de mais proteção que os czares de outrora, e por isso achou que a Fortaleza abandonada de Moscou seria mais vantajosa para ele. Seu pensamento se mostrou correto. No dia 30 de agosto de 1918, ele foi vítima de um atentado, coisa que czar nenhum jamais havia sido. Levou dois tiros, quando entrou em seu carro, após discursar para funcionários de uma fábrica de armas. Tiros esses, disparados, ironicamente, por uma anistiada de prisão perpétua pelos revolucionários: a anarquista Fanya Kaplan.

Contudo, há controvérsias quanto a ser ela a verdadeira assassina. Alguns relatórios apontavam o fato dela ser míope, além de ter sido cega por seis anos, tendo recuperado a visão em 1912; tudo isso impedindo ela de ser a autora dos disparos. Seu depoimento a polícia, em que ela confessou tudo sem qualquer problema, apontou que ela era a) uma pessoa com sentimentos auto-destrutivos, que só perpetrou o atentado para voltar para a cadeia, ou b) ela era apenas uma peça num plano maior.

A seguir um trecho da declaração dela: "Eu me chamo Fanya Efimovna Kaplan, este é o nome sob o qual fui registrada como prisioneira do campo de trabalhos forçados de Acatua. Eu disparei hoje contra Lenin. Disparei contra ele por convicção própria. Disparei várias vezes, mas não sei quantas. Não contarei nenhum pormenor em relação à arma. Disparei contra Lenin porque o considero um traidor da Revolução e a sua existência irá destruir a crença no socialismo."

A história por trás da história diz que o verdadeiro autor dos disparos foi um agente da Tcheka - a primeira encarnação da KGB, criada pelo polonês Felix Dzerzhinsky - chamado Protopopov, que estaria decepcionado com os rumos da revolução. A idéia era que Kaplan o encobrisse. Mas tudo deu errado pra ele. A Tcheka descobriu o plano e prendeu os dois - não era a idéia deles mostrar que havia descontentamento entre suas fileiras, então a prisão de Protopopov foi feita em segredo. Protopopov foi executado no mesmo dia 30, e seus restos mortais foram eliminados sem deixar vestígios. Kaplan, que jamais ficou sabendo que Protopopov havia sido preso, ainda passaria pelos processos normais de instrução do processo criminal e um sumário julgamento, onde "confessaria" o crime. No dia 4 de setembro ela foi executada numa garagem, por Pavel Malkov, que também eliminou seus restos mortais sem deixar vestígios.

Depois desse incidente Lênin se fechou no Kremlin, para logo depois o reformar e fortalecer. Fez ainda o impensável, ao trazer para defende-lo, o 4º Batalhão de Fuzileiros da Letônia, um grupo de comunistas fanáticos, mercenários aguerridos e cortadores-de-garganta, que só quis receber em ouro. O careca líder do partido bolchevique também aproveitou o momento para enrijecer a política interna. Neste momento, as coisas estavam feias para o lado dos comunistas. Estavam acontecendo rebeliões armadas pela falta de alimentos, e pela expropriação de propriedades agrárias pelo Conselho de Comissários do Povo (Conselho de Ministros).

 

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Para conter esse tipo de distúrbio, Lênin e a alta cúpula do Politburo (o mais alto Comitê do Partido Comunista) precisaram tomar medidas drásticas para salvar a Revolução, que ainda era bebê. De todas essas medidas, uma absolutamente secreta foi a que salvou o regime do colapso: homens da Tcheka foram à todas as aldeias que estavam ocorrendo rebeliões - e à várias em que potencialmente podiam ocorrer - e tomaram as pessoas mais influentes como reféns. Ao menor sinal de descontentamento, tais pessoas seriam executadas. Naturalmente foram necessárias algumas execuções para que o povo entendesse que eles estavam falando sério. Com isso, o regime foi salvo graças a muito sangue derramado pela Tcheka e pelo NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos, o equivalente aos órgãos policiais, naqueles tempos).

Mas a resolução de um problema perigoso gerou outro muito pior! A Tcheka, completamente liberta de normas se embriagou de sangue. Nas províncias de Tver e Torzhok, os tchekistas mataram os reféns simplesmente porque quiseram, e junto com eles, os líderes comunistas locais, que foram substituídos por gente mais "cooperativa". Os próprios dirigentes da polícia secreta, absurdamente fortalecidos, estavam muitíssimo a fim de tomar o poder absoluto do país. Lenin, ainda se recuperando do atentado, tomou algumas medidas para ao menos controlar o terror sanguinário que estava sendo espalhado pelo país.

Dentre outras decisões - como a que considerava inocente um preso, se dois integrantes do partido testemunhassem a favor dele - as mais importantes diziam respeito ao fim do monopólio da atividade secreta para a Tcheka. Para isso, Lênin criou mais dois serviços secretos que competiriam com o filhote de Dzerzhinsky. O primeiro deles atuaria no interior do país e se chamava Rabkrin (Inspetoria dos Operários e Camponeses), criado em outubro de 1918. A idéia por trás da criação desse serviço secreto era manter os tchekistas - e todo o resto da elite governamental soviética - sob constante pressão, já que os agentes da Rabkrin não precisavam de ordens especiais para mandar alguém para frente de um pelotão de fuzilamento, ou adentrar em qualquer linha de produção e fazenda e verificar o trabalho ali feito. Ademais, o Rabkrin deveria investigar e punir os crescentes casos de corrupção, e principalmente de ficar de olho nos funcionários que haviam colaborado com o regime czarista, mas que ainda ocupavam cargos públicos.

No fim das contas, o Rabkrin mais atrapalhou que ajudou. O medo e confusão que espalhou acabaram elevando os níveis de corrupção ainda mais. Quando conseguia combatê-la, acabava burocratizando todas as instâncias do serviço. E após desagradar a todos, o Rabkrin fo fundido - ou melhor, mudou de nome, já que todos os órgãos da estrutura soviética e russa só mudam de nome, nunca acabando -, sendo sua estrutura fundida com a Comissão de Controle do Conselho de Comissários do Povo. Em 1934, no 17º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, o Rabkrin (ou Comissão de Controle) foi definitivamente dissolvido, mas não coincidentemente foi criado no mesmo Congresso, um órgão com o poder de auditar todas as atividades de todas as instâncias do Trabalho na União Soviética: a Comissão do Partido e Controle do Estado. Tal Comissão, já sob o regime de Brejnev (que durou de 1964 a 1982) finalmente mudaria de nome e assumiria o nome que a batizaria até o fim do regime soviético (seus quadros, após o fim da União Soviética, iriam compor a FAPSI, um serviço secreto russo): Comitê de Controle do Povo.

A segunda medida de Lênin foi tomada no intuito de restringir o poder das atividades secretas da Tcheka no estrangeiro. Para isso ele criou (também em outubro de 1918) um órgão com o inexpressivo nome de Diretoria Registrada do Exército Vermelho. Basicamente essa Diretoria surgiu para coordenar no nível mais alto do exército - o Estado-Maior Geral - as atividades militares no que diz respeito a espionagem. Naturalmente as brigas entre esses órgãos poderosos possibilitou Lenin e a alta cúpula do Partido um sono sossegado, já que como eles competiam ferrenhamente, qualquer sinal de fuga das diretrizes era denunciado pelo órgão competidor, o que resultava em expurgos.

 

O Bunker Secreto de Stalin

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Depois da morte de Lenin, Stalin - que fora chefe do Rabkrin de 1920 a 1922, ano em que ascendeu ao posto de Secretário-Geral do Partido -, quando assumiu, após mandar matar Leon Trotsky, seu adversário político, tornou o Kremlin uma fortaleza ainda mais poderosa. Além disso, ele mandou construir outras fortalezas para si próprio e para camaradas como Beriya e Molotov, nos arredores de Moscou. A maior delas era a famosa dacha de Kuntsevo. Ele também tratou de interligar várias delas com túneis subterrâneos e estradas secretas para que pudesse trafegar tranquilamente, além de despistar seus inimigos. Ele tratou também de expulsar os mercenários lituanos que Lenin havia posto para guardar o Kremin, os fuzilando quase imediatamente ao subir ao poder. Anos depois ele faria coisa semelhante na própria Letônia, e em todos os outros dois estados bálticos - Estônia e Letônia.

Uma tradição na política russa se provou verdadeira mais uma vez. Ela diz que quanto mais o governante se fechar em seu antro de poder, mais rigoroso é o regime dele. E Stalin mostrou isso da forma mais cruel possível. Ao dotar o Kremlin de ferramentas que alimentassem a sua típica paranóia, ele, ao mesmo tempo, transformou seus anos no poder em um dos momentos mais sangrentos da história da Humanidade, deixando a Ditadura Brasileira parecendo um mosteiro zen-budista.

Primeiramente, ele tratou de eliminar a poderosa classe dos kulaks, que eram ricos proprietários de terra, iniciando a chamada Coletivização. Vários donos de propriedades agrárias queimaram sua produção e mataram seu gado para que ele não fosse entregue ao Estado, o que resultou numa aguda crise de alimentação na União Soviética entre 1930 e 1932. Apenas em 1929, cerca de 1300 revoltas de camponeses foram esmagadas violentamente, e nos cerca de quatro anos que durou o período de Coletivização, algo em torno de 400.000 habitantes soviéticos pertencentes a classe kulak foram deportados para a Sibéria em trens especiais, onde ficaram pra morrer. Ao todo, entre mortos pela fome ou simplesmente fuzilados, morreram cerca de 5 milhões de pessoas, enquanto outros 25 milhões foram para as cidades, que presenciavam um clima de absoluto caos, com um mercado negro de venda de alimentos poderosamente estabelecido.

Como medida para contornar o período de crise aguda, Stalin permitiu que muitos camponeses adquirissem um pedaço de terra para que cultivassem e vendessem os frutos dele da forma que bem entendessem. O resultado foi uma mostra da precariedade do sistema de terras coletivas! Apenas 3% das terras soviéticas estavam nas mãos desses trabalhadores mais ou menos livres, e essa ínfima parte foi capaz de produzir 25% das culturas, mais da metade de frutas e verduras e 72% de leite e carne. Se na época do Império Russo o país era o maior produtor e exportador de grãos do mundo, agora se tornou um grande importador, com revoltas causadas pela falta de alimento.

Mas se as coisas iam mal na área agrícola, o país, na área industrial, em apenas 16 anos e dois planos quinquenais depois da subida de Stalin ao poder, já era o terceiro mais importante do mundo. Dezenas (alguns dizem centenas) de cidades foram criadas em poucos anos, e foram iniciadas milhares de obras grandiosas, como o metrô de Moscou, e a forte extração de petróleo e outros recursos minerais no interior do país. A mão-de-obra era barata - os trabalhos mais perigosos eram feitos por prisioneiros dos campos do Gulag, o que barateava custos e tornava os prazos mais rápidos.

Logicamente que os trabalhadores sofriam pressões intensas por parte dos dirigentes do Partido. A jornada de trabalho foi ampliada, passando para 10 horas em alguns lugares, e um dos dias de descanso do fim de semana foi suprimido, ficando apenas o sábado. Mas, mesmo com esses pesados sacrifícios, e com um forte descontentamento popular, causado principalmente pela questão alimentar, é fato que a União Soviética, em cerca de 15 anos saiu do terceiro mundo das nações agrárias, para uma potência industrial. Anos depois, ele também assumiria uma importante posição no quesito de descobertas científicas.

Entretanto, Stalin e sua alta cúpula, viram a necessidade de colocar todas as camadas da população soviética de joelhos. Em 1935 se iniciaram planos para a composição de uma Comissão Especial de Segurança para caçar dissidentes do regime. Tal Comissão atuou durante os anos de 1937 e 1938. Mas não pense que antes desse período não existia coisa semelhante ocorrendo. Victor Serge, um revolucionário de ascendência russo-belga, que trabalhou durante anos como jornalista e tradutor do Comintern (Internacional dos Partidos Comunistas), mostrou no prefácio do seu livro O ano I da Revolução Russa, como o regime stalinista que ele tanto odiava já havia ceifado a vida de quase todos os integrantes do Partido que participaram da Revolução de 1917:

 

"Dentre os homens cujos nomes serão encontrados nas págians seguintes deste livro, apenas um sobrevive, Trotsky, perseguido há dez anos e refugiado no México. Lenin, Dzerjinski e Tchitcherin morreram antes, evitando assim a prostrição. Zinoviev, Kamenev, Rykov e Bukharin foram fuzilados. Entre os combatentes da insurreição de 1917, o herói de Moscou, Muralov, foi fuzilado; Antonov-Ovseenko, que dirigiu o assalto ao Palácio de Inverno, desapareceu na prisão; Krylenko, Dybenko, Chliapnikov, Gliebov-Avilov, todos os membros do primeiro Conselho dos Comissários do Povo, tiveram a mesma sorte, assim como Smilga, que dirigia a frota do Báltico, e Riazanov; Sokolnikov e Bubnov, do Bureau político da insurreição estão presos, se é que ainda vivem; Karakhan, negociador em Brest-Litovsk, foi fuzilado; dos dois primeiros dirigentes da Ucrânia soviética, um Piatakov, foi fuzilado, e o outro, Racovski, velho alquebrado, está na prisão; os heróis das batalhas de Sviajsk e do Volga, Ivan Smirnov, Rosengoltz e Tukhatchevski foram fuzilados; Raskolnikov, posto fora da lei, desapareceu; dos combatentes dos Urais, Mratchkovsky foi fuzilado, Bieloborodov desapareceu na prisão; Sapronov e Viladimir Smirnov, combatentes de Moscou, desapareceram na prisão; o mesmo aconteceu com Preobrajenski, o teórico do comunismo de guerra; Sosnovski, porta-voz do Partido Bolchevique noprimeiro Executivo Central dos sovietes da ditadura, foi fuzilado; Enukidze, primeiro secretário desse Executivo, foi fuzilado.

A companheira de Lenin, Nadejda Krupskaia, terminou seus dias não se sabe em qual cativeiro… Dentre os homens da revolução alemã, Yoffe suicidou-se, Karl Radek está preso; Krestinski, que continou atuando na Alemanha, foi fuzilado. Da oposição socialista-revolucionária de 1918, Maria Spiridonova, Trutovski, Kamkov, Karelin, provavelmente sobrevivam, porém na prisão já há 18 anos. Blumkin, que aderiu ao Partido Comunista, foi fuzilado. Entre os homens que, no Ano II, asseguraram a vitória da revolução, pequeno número ainda vive: Kork, Iakir, Uborevitch, Primakov, Muklevitch, chefes militares dos primeiros exércitos vermelhos, foram fuzilados; fuzilados os defensores de Petrogrado, Evdokimov e Okudjava, Eliava; fuzilado Fayçulla Khodjaev, que teve papel de grande importância na sovietização da Ásia Central; desaparecido na prisão, o presidente do Conselho dos Comissários dos Sovietes da Hungria, Bela-Kun… "

Os membros da Comissão Especial - os únicos que tinham certeza que chegariam vivos ao fim do processo -, eram: Stalin, Zhdanov, Yezhov, Shkiriatov, Malenkov e Voyshinski. Durante dois anos eles agiram na surdina, fuzilando dois terços dos integrantes do Partido, 13 dos 15 maiores generais do Exército Vermelho, outros 5.000 oficiais de major pra cima, e 8.000 funcionários do NKVD (a nova denominação da Tcheka). Após a limpeza dos oficiais de dentro do seu território, foi iniciado um expurgo especial nos espiões que atuavam no estrangeiro, e que nem sabiam como estava o regime político na URSS.

 

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Dentre os que estavam no exterior, os do NKVD foram os primeiros a morrer. Yan Berzin, o então chefe da GRU (Diretoria Superior de Informações, o serviço secreto do exército), e uma dezena de auxiliares de confiança, viajou para o exterior com ordens especiais emitidas pelo Comitê Central do Partido e eliminou praticamente toda a rede de espiões políticos russos secretamente. Alguns, percebendo a situação, tentaram voltar ao país, mas foram imediatamente presos nos porões da sede do Estado-Maior no Bulevar Gogol, torturados e fuzilados.

No fim de setembro de 1936 foi a vez do Exército. Yezhov, Segundo-Secretário do Comitê Central, assume a direção do NKVD, e põe seus olhos nos militares. Primeiramente, todos os integrantes do Estado-Maior Geral são sumariamente mortos secretamente, sem qualquer julgamento. O caso mais famoso foi o do Marechal Tukhachevsky, herói da Guerra Civil, e um dos mais famosos oficiais militares do país. Depois o sangue passa a correr para as patentes mais baixas, entre os comandantes de exército e divisão, os quais 80% foram expurgados. A GRU também foi completamente destruída. Até mesmo lavadores de banheiro e cozinheiros foram fuzilados, juntamente com unidades de combate especiais altamente treinadas (os chamados partisans) e prontas pra guerra, foram executadas

Após os mais importantes integrantes do regime pagarem com a vida, foi a vez do povo. O assassinato de Kirov, chefe do Partido de Leningrado - antiga São Petersburgo -, que dizem alguns, foi a mando de Stalin, foi usado como estopim para os todo-poderosos iniciarem o Grande Expurgo na população. Todos os centros do NKVD e da Milícia do Povo (polícia) recebiam semanalmente metas para detenções. Independente de quem fosse, esses números tinham que ser cumpridos. Logicamente os agentes escolhiam prender os que mais lhe trouxessem vantagens financeiras e pessoais. Foi criado um artigo especial no código criminal - o temido 58 - que dizia respeito aos inimigos do povo. Uma pessoa que esbofeteasse um integrante do Partido, por exemplo, logo era enquadrado no 58, o que significava que as chances dela escaparem vivas da cadeia eram quase nulas.

Nos primeiros meses as coisas ocorriam de forma fácil. Todos os tchekistas tinham inimigos e conheciam pessoas ricas; então as prendiam, torturavam e terminavam por envia-las a Sibéria para que apodrecessem em algum canto escuro. Mas após o primeiro ano, as coisas estavam complicadas. As Unidades Especiais da NKVD recebiam telegramas simples, contendo mensagens como: Nos enviem mais trezentos!, e tinham que dar um jeito de cumprir. Quando as coisas estavam realmente agudas, e não tinha mais gente para prender, os cães sarnentos da Segurança do Estado, como Kalgárnov, da cidade de Tachkent, davam seus pulos, o que incluía prender mendigos e ciganos parados na praça e colar um grande 58 na testa de cada um. Mas geralmente existiam tipos especiais de subcrimes, dependendo de onde a pessoa vinha. Os presos no estrangeiro eram, sem exceção, acusados de serem espiões dos alemães; enquanto os que trabalhavam em estradas de ferro do extremo oriente eram espiões dos japoneses, e assim por diante.

Os intelectuais também sofreram, especialmente os professores escolares. Uma mísera denúncia de um aluno que era membro do Konsomol (a Juventude Comunista), dizendo que seu professor não citava Stalin nas aulas, era o bastante para o professor sumir. Por motivos como esse, esse Grande Terror é tão vastamente documentado e escrito.

O Grande Terror só acabou por um motivo: seu Cirurgião-Chefe, Nikolai Yezhov, havia cometido o erro de ocupar, ao mesmo tempo, os cargos de chefe do NKVD e da GRU, após matar o diretor da última, no dia 29 de julho de 1938. Stalin percebeu imediatamente que estava perdendo o controle sobre a atividade secreta no país. Com a calma costumeira de sempre, ele iniciou o processo de destruição de Yezhov no mesmo dia. Em outubro, Yezhov é destituído de seu cargo. Em janeiro do ano seguinte, ele é preso e tem início seu interrogatório. Ele permanece na cadeia até julho de 1940, quando no dia 4 ele tem seus olhos e orelhas arrancadas, para logo depois ser enterrado vivo na pior prisão soviética: Sukhanovo.

E o Kremlin foi testemunha disso. Stalin quase o abandona, após a construção de um bunker em 1939, que era ligado a Fortaleza por um túnel de 10 quilômetros, mas prefere as dependências do Kremlin, que são mais bem localizadas. De lá ele testemunharia as consequências da insanidade que foi seu Grande Expurgo, que teriam consequências diretas - e negativas - na II Guerra. Os adidos militares ingleses na URSS, vendo a dimensão da crueldade, recomendaram a seus chefes que não fizessem qualquer tipo e aliança com os soviéticos para conter o avanço nazista. Ao invés disso os ingleses se aliaram a Polônia, cujo ataque no dia 1º de setembro de 1939 deflagraria a II Guerra Mundial. Stalin, por sua vez, se aliaria aos próprios nazistas, no chamado Pacto Ribbentrop-Molotov (uma alusão ao nome dos ministros de relações exteriores dos dois países), cuja validade seria de dois anos - a dois meses do fim do prazo, em 22 de junho de 1941, a Alemanha invadiria a União Soviética.

 

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O próprio fuzilamento de milhares de oficiais militares também faria falta ao Exército Vermelho. Apesar de conceber brilhantes oficiais durante a II Guerra - como Jukov, Vasilievsky, Rokossovsky, Bulganin, Konev e Yeremenko - ficou patente que faltava experiência entre as tropas que combatiam. Tanto que os primeiros meses de combate foram unicamente de uma vitória esmagadora para o lado alemão. As forças alemãs, em setembro de 1941, chegaram aos arredores de Moscou. O governo soviético tinha planos para transferir-se para Kuibyshev, 650 quilômetros país a dentro. Fábricas e outras instalações foram minadas e prontas pra detonação, assim como todos os bunkers e mansões dos chefes do Partido. O Mausoléu de Lênin fora embarcado para o leste, sendo abrigado numa antiga escola czarista na cidade de Tiumen, na Sibéria. Nesse momento, um quinto da população está em fuga da capital, já que a principal linha de defesa fora rompida.

O NKVD determinou o dia 16 de outubro como a data em que seriam evacuados todos os membros importantes do Partido, deixando apenas os militares a cargo da defesa. No exato dia, todos estavam prontos. Um trem exclusivo esperava Stalin. Seus guarda-costas o esperavam na zona de embarque, Beriya, o chefe da segurança, o esperava... mas, por algum motivo, Stalin não apareceu. Jukov, o Marechal que comandava a Defesa de Moscou, convencera Stalin que o Kremlin - e Moscou - era seguro, e podia ser defendido. Mais tarde, quando perguntado o por quê de não ter deixado o Kremin, Stalin disse: Moscou teria ardido em chamas! Os alemães a tomariam, o que significaria nossa derrota completa, e a vitória nazista não só sobre nós, mas sobre todo o mundo.

A propaganda soviética logo espalhou que Stalin ainda estava em Moscou, o que com certeza clareou ao menos uma esperança de vitória entre todos. Um dia depois da decisão, já à frente do poderoso Conselho de Defesa (formado por ele próprio, Malenkov, Beriya, Molotov e Voroshilov), Stalin faz um discurso emocionado, gago e patriótico à nação, conclamando o povo para a defesa da capital e de seu país. Coincidência ou não, foi o início do fim do Terceiro Reich. Depois de serem expulsos - alguns soldados adentraram a capital, mas foram mortos por operários de fábricas que usaram marretas e metal derretido - de Moscou, os alemães jamais chegaram perto da capital novamente. Nem mesmo obtiveram uma vitória esmagadora sobre o Exército Vermelho após esse episódio.

 

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Ao fim da II Guerra, o regime nazista é varrido e os soviéticos saem fortalecidos, mesmo com suas pesadas baixas de mais de 20 milhões de pessoas. O Kremlin, com seus cerca de 3 bilhões em tesouros, permaneceu intacto e jamais foi alvo de ataques nazistas. Posteriormente a Stalin, praticamente nenhum governante fez alterações significativas na estrutura de poder e nas entranhas do Kremlin. Talvez o que mais tenha chegado perto disso, foi Nikita Khrushchev. Após presenciar a morte de Stalin, e, numa guerra de lobos como jamais se viu na estrutura de governo soviético, afastar os todo-poderosos Lavrenti Beriya e Georgui Malenkov, ele assume o poder. Para conseguir capital político, e afastar a linha-dura apoiadora de Stalin - que fique claro: ele mesmo foi um dos maiores stalinistas do Comitê Central - Khrushchev inicia o que ficou conhecido como desestalinização.

Rapidamente Khrushchev afasta antigos colaboradores stalinistas: Beriya, Bulganin, Molotov e Lazar Kaganovitch, metade deles por não colaborarem com as reformas (Molotov e Bulganin), outro por ser seu adversário direto na disputa rumo ao topo (Malenkov) e o quarto pro crimes inomináveis (Beriya, o único fuzilado, que na época de Stalin chegava a sair na rua com sua limusine e estuprava as mulheres de seus subalternos). À partir de Khrushchev, o Terror diminuiu, bem como as intrigas dentro do Kremlin. O mundo presenciava os desdobramentos da Guerra Fria, com Crise dos Mísseis Cubanos e invasões a diversos países.

Entretanto os dias de Khrushchev já estavam contados antes mesmo dele subir ao poder. Já expliquei no Glaspost sobre Gorbachev como funciona a estrutura de poder soviética, dividida entre três forças poderosas: Partido, KGB e Exército. O problema é que Khrushchev estava alterando o equilíbrio dessas três forças após o fim da Era Stalin. Primeiro ele cortou a cabeça de Beriya, o mais alto graduado da KGB (na época, ainda NKVD, sucessora da Tcheka), que era o elemento mais perigoso dos quadros soviéticos. Beriya foi morto em plena reunião do Politburo, com três tiros na cabeça disparados pelo Marechal Konev. A facilidade na queda de Beriya diz respeito a uma aliança secreta dele com integrantes do Exército, já que figuras poderosas assim não podem ser removidas com tanta facilidade.

Depois foi a vez de Khrushchev tirar o Marechal Jukov, agora um membro do Politburo e Ministro da Defesa, da área. Ele foi o mais importante chefe militar da II Guerra, quatro vezes Herói da União Soviética, a mais alta honraria a um comunista (Stalin só o fora duas vezes e Beriya uma), e exigia cada vez mais poder. Livre de suas limitações e consciente do poder imenso que exercia, Jukov manda, numa fornada só, fuzilar todos os comissários políticos do Exército - tais comissários, junto com os Comissários Especiais do KGB, eram como braços dessas duas organizações para impedir que o Exército simplesmente os expulsasse do poder. Com isso o Exército estava livre de amarras externas; levando-se em comta que os Comissários Especiais haviam sido fuzilados meses antes, durante a campanha para matar Beriya. Dentro do Politburo, Jukov contradizia e xingava Khrushchev abertamente.

O Partido viu que o Exército estava poderoso demais, e que avançava rumo ao poder supremo. E pior: era indefeso frente ao poder dele. Mas Jukov vacilou. Foi a Iugoslávia, o que deu tempo para o Partido e o KGB se unirem secretamente e o dispensarem de todas as suas funções. O chefe da GRU na época, Shtemyenko, tentou avisa-lo, mandando um telegrama, mas esse foi interceptado pela KGB e ele acabou preso. Jukov voltou de sua viagem direto pra cadeia. Junto com Jukov, 1,2 milhão de homens do exército foram expulsos em desgraça, alguns deles sem qualquer direito a aposentadoria, mesmo tendo lutado na linha de frente da II Guerra.

Em 1962 o Partido inicia nova campanha de expurgos contra o KGB, o que o enfraquece ainda mais. Ou seja, o Partido havia enfraquecido o KGB duas vezes - uma delas com a ajuda do Exército - e enfraqueceu o Exército, dessa vez com a ajuda do KGB. O Partido estava adquirindo poder demais dentro da estrutura, e com isso o jamais ocorrido acontece na história soviética: KGB e Exército se uniram. Khrushchev cairia dias depois sem qualquer ruído, e com ele dois terços dos integrantes do Comitê Central, sobrando apenas os militares e os tchekistas. Depois desse embate, a cúpula do poder permaneceu inalterada por cerca de 18 anos, durante a Era Brejnev. Após Brejnev, o Kremlin testemunharia a URSS começar a entrar na rota final da sua existência, com a subida ao poder de Gorbachev. Depois veria os anos alcoólicos de Yeltsin e sua gangue... que faria um acordo com o mezzo soviético Vladmir Putin.

Um dos funcionários de Putin, Vladmir Koshin, diretor do Departamento de Propriedade do Kremlin, é um dos pivôs de um escândalo em 2007. O Departamento, que possui mais de 50 mil funcionários e administra alguns dos imóveis mais caros de Moscou e do mundo, havia autorizado - sem permissão do Patrimônio Histórico - a destruição de vários edifícios antigos e protegidos da Praça Vermelha, tudo para dar lugar a um hotel de alto luxo e uma casa de leilões. Mas, como era de se esperar, ninguém foi punido pelo fato.

Hoje o Kremlin readquiriu grande parte do poder que havia perdido. Por lá ainda são decididos os destinos do maior arsenal nuclear do mundo, uma das maiores economias do planeta, e onde o Exército Vermelho irá atacar novamente - primeiro foi a Chechênia que pereceu, depois a Geórgia, agora o temor é que seja a Moldávia ou a Ucrânia, que tem bolsões de população russa gigantes, fruto da política dos líderes soviéticos de encherem as outras repúblicas de russos para que se perdesse a identidade cultural e a ligação com a terra.

O Kremlin foi testemunha e palco de algumas das mais importantes decisões do século passado, e outras desse século. E se manteve lá, impassível, soturno, enquanto em seu interior eram coroados reis, fuzilados chefes de estado, e decididos os destinos de milhões de pessoas do outrora império soviético. Sua estrutura é uma das mais fortes do continente europeu, o que o torna apto para participar da vida política mundial por mais 900 anos.

 

Referências:

[Livros]

A Guerra Secreta de Stalin, Nikolai Tolstoy

O Exército Soviético por Dentro, Viktor Suvorov

A Espionagem Militar Soviética, Viktor Suvorov

Arquipélago Gulag, Alexander Soljenítsin

As Dez Decisões que Mudaram o Mundo, Ian Kershaw

A Verdade Sobre a Rússia, Mozart Monteiro

 

[Sites]

Wikipedia.org

English Russia

Deutsche Welle

12 Comentaram...

murilo disse...

Depois leio o reto

AndréBetim disse...

Sinceramente, vc espera que alguém tenha saco pra ler todo esse seu enorme, desinteressante e pretencioso ensaio?

Essa sua fixação com a cultura russa tem resultado em textos realmente massantes, sendo que este atingiu o paroximo.

Podia pelo menos falar um pouco sobre Dostoiévski, Tchaikovsky, Gogol (que era Ucraniano, mas vá lá).

Qualquer assunto que não inclua uma foto de Stalin, de quem Hitler usurpou injustamente o posto de maior carniceiro da história moderna.

Thiago Cortes disse...

A União Soviética tinha firmado um pacto de naõ-agressão com a Alemanha e só depois que Hitler resolve avançar que Stalin decide, finalmente, usar o poder militar russo para algo útil. Em realação a todos os grandes projetos de engenharia humana citados, a pergunta que fica é: quantas obras por Gulag?

Sugestões para futuros posts:

- O caso dos anarquistas. Ao assumir o poder, Lenin decide perseguir e matar os anarquistas critícos ao regime, entre eles, Nestor Makhno.
- Fome na Ucrânia. Stalin conduz milhares de camponeses à fome no episódio conhecido como Holomodor. Famílias inteiras morreram de fome.
-Caçada aos Homossexuais. Stalin era um coletivista autoritário e coletivistas autoritários exigem de todos o mesmo padrão de moralidade. Por isso, Stalin caçou, prende, enviou para Sibéria e matou não apenas trokystas e democratas, mas homossexuais.

murilo disse...

Concordo com o ponto do Voz do Além abordar autores russos.

A Voz do Além disse...

Toda a cultura russa (música, livros e filmes) será abordada. Mas não adianta nada entrar no assunto sem falar sobre o contexto histórico e político em que o país vivia.

Pegue o "Encouraçado Potemkin", por exemplo. Todos dizem gostar do filme, mas pouca gente sabe que é uma propaganda ideológica pura e simples. Então, para entender a cultura russa (e principalmente o que é divulgado sobre ela), é necessário antes se entender seus regimes políticos.

Portanto, aguardem... a série está na edição 9 ainda.

Doug disse...

Porra, muito bom o texto! Só que poderia ser dividido para não criar problemas para nós mortais que damos uma escapadinha no serviço pra espiar o NSN. Quase me pegaram umas 3 vezes... O texto é envolvente, não conseguia parar de ler. Faço coro com o Thiago, Makhno e os anarquistas ucranianos que deram uma bela roda-de-pau no exército branco e vermelho simultaneamente merecem uma matéria rica em detalhes como esta. Enfim, gostei, polegares erguidos para o texto, mas devia ser dividido em textos menores para facilitar a vida do leitor.

AndréBetim disse...

Eu tb achei o texto excessivamente longo...e propaganda ideológica é uma expressão que me veio a mente sim.

Gostaria de ler algo sobre o episódio conhecido como "o massacre da floresta de Katyn". Com certeza seria mais relevante que o "Otakus russos" ou "AK-47..."

A Voz do Além disse...

Propaganda ideológica?! De uma ideologia que já não existe? Realmente não é o tipo de coisa que faço! Mas cada um com suas interpretações... e não vou te contestar, até porque admiro a cultura e o modo de vida russo, e talvez essa admiração soe como apoio a ideologia que eles tiveram no passado.

Quanto aos temas: vai ter uma série sobre a II Guerra Mundial (o Massacre de Katyn e outros tipos de atrocidades cometidas pelos russos no meio) que vai durar uns 5 ou seis posts, que estou preparando, assim como outra a Revolução, que vai ocupar mais uns três.

E não dividi esse post por não conseguir estabelecer uma linha de corte adequada. Mas prometo que os próximos terão um tamanho um pouco menor!

É só aguardar e entender que isso leva muito tempo.

Felipe disse...

Muito bom o post, porém acho que você acabou falando sobre assuntos que não estavão na proposta do post. Talvez por isso que tenha ficado tão extenso. Mas a linguagem não ficou massante, apenas nomes complicados que eu nunca ouvi falar.
Vlw

Velhos Outonos disse...

Nice big amazing post!

Gamarano disse...

Muito bom o post...
AndréBetim, se acha um texto muito longo é só não ler e pular pro próximo

Anônimo disse...

Voz do Além se superou. Colocar textos como esse na internet é de um valor estupendo. Se, de acordo com a bibliografia citada, ele colocou tudo com as proprias mãos é de uma preciosidade indescritivel. Na internet lusofona só encontramos futilidades e textos replicados sem acrescimo nenhum. Parabens para o jornalista...

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