quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Avatar FiliPêra

Os Fragmentos de Tracey

 

The.Tracey.Fragments

 

Regras são para ser subvertidas. Essa é uma das primeiras coisas que coloquei na  cabeça ao ingressar no curso de Jornalismo. Aprender a fazer os chatos leads, citações apropriadas e uma caravana de coisas que uma mísera notícia deve conter, para mim só serve para se aprender a “desmontar” o produto final e construí-lo da maneira que achar apropriada, seja ele em acordo com as regras ou não; tudo depende de quem se quer atingir.

A sensação que se tem é  que o diretor desse filme, Bruce McDonald, teve a mesma exata idéia enquanto aprendia, em seu curso de cinema, regras como ângulos, movimentos de câmera e enquadramentos. Ele logo trata de desconstruir regras do cinema e fazer uso de recursos narrativos pouco usuais. É claro que não há nada revolucionário em seu filme; tudo o que vemos aqui já pode ser visto em inúmeras produções de videoclipe e em filmes independentes, mas o produto ficou tão bem azeitado e acabado que o que parece é que tais recursos são inéditos na indústria cinematográfica.

Mas, primeiramente, deve-se dizer que Os Fragmentos de Tracey não é um filme comum. Ele não irá fazer sucesso nos cinemas e tampouco no mercado de DVD’s. Dificilmente passará na tela grande, a não ser em mostras de cinema cult, ou em salas universitárias. Não é pra menos, pois esse filme não deve agradar muita gente mesmo. Antes de tudo, Fragmentos é uma grande exercício de estilo, uma grande mistura do estilo imortalizado por Alejandro González Iñárritu em 21 Gramas, com a linguagem de videoclipes criada e imortalizada pela MTV nos anos 80/90. O resultado é excepcional, mas exige neurônios acordados e olhos pulsantes para ser assimilado.

 

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Mas, ao contrários dos famigerados videoclipes mtvianos, esse filme tem uma estrela, e ela se chama Ellen Page, que torna cada película do filme importante (e linda). E a musa indie do momento vai do céu ao inferno em segundos, como deixa bem claro durante suas consultas a psiquiatra (andrógena, por sinal, para se juntar a galeria de personagens esquisitos do longa), por exemplo. Ellen é Tracey Berkowitz, uma adolescente de 15 anos com problemas com os pais, e dando um “agradável passeio” pela parte mais podre e suja de sua cidade, em busca de seu irmão perdido.

Ela começa nua, enrolada em uma cortina de banheiro e nos expondo suas memórias, que dão o tom acelerado, claustrofóbico e de humor negro do filme. A própria capa do filme já mostra isso, com a cortina que ela usa representando um vestido de uma princesa de contos de fada, e sua maquiagem carregada contrastando bruscamente com a situação em que ela se encontra no momento. Os outros atores, embora em menor escala, também interpretam magistralmente os seus papéis, mesmo que com menor destaque.

Mas, assim como Irreversível, o grande trunfo de Fragmentos é sua parte técnica. Para isso basta dizer que Bruce McDonald o filmou em meros 14 dias, mas demorou longos nove meses para monta-lo na sala de edição. Como ficará óbvio desde o início, Fragmentos é um trabalho minimalista de edição (me surpreendeu ele ser baseado num livro, que não imagino como deve ser…), sobrepondo telas, e colocando em formato de filme, o modo fragmentado que uma menina problemática e com forte sentimento de culpa (não vou contar porque) pensa e dá a luz as suas memórias, inclusive fantasiando sobre a verdadeira natureza do amor da sua vida.

 

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Mas não só de várias telas, que absolutamente subvertem regras básicas do cinema e vídeo, ao confundir o espectador, e em alguns momentos atordoa-los; é que são feitos os prodígios técnicos de Fragmentos. Vemos ecos, repetições e sobreposições de imagens, que, além de serem uma proposta estética interessante, se encaixam muito bem no quesito narrativo e ajudam a contar uma boa história. História essa que é rasa, para não se sobrepor aos artifícios técnicos e não dar um nó na cabeça do espectador, exatamente como foi com o próprio Irreversível e com 21 Gramas.

Ao fim dessa jornada amalucada e acelerada, a única opção é remonta-la na sua mente, para ter certeza que não deixou nada de fora. O próprio final é bem feito e não anti-climático como é comum em obras não-lineares, unindo duas pontas soltas que, em todo o filme, perseguem quem está assistindo, e o fecha com propriedade, explicando o porquê da angústia da personagem durante as buscas ao seu irmão.

 

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Mesmo não sendo perfeito, Fragmentos expõe como o cinema pode ser revitalizante e atual, mesmo com os inúmeros clichês e regras não declaradas da indústria. É uma pena que passou despercebido.

 

The Tracey Fragments (Canadá, 2007)

Diretor: Bruce McDonald

Duração: 77 min

Nota: 8,0

6 Comentaram...

bruno disse...

boa resenha, irei ver o filme assim que possivel

João Cláudio disse...

Recomendo aos EMOS
eles irao adorar!!!

42 disse...

Cara, assisti o filme a pouca mais de uma semana... Tenho que dizer, um dos melhores filmes que já vi. Tudo ficou perfeito nesse filme pra mim. A trilha sonora detona também. Enfim, melhor recomendação do NSN ever!

Neca disse...

Confesso q pirei um pouco com o filme...

Mas, recomendo ...
Assista sem sono!!!

juliet disse...

alguem tem o link pra baixar ou assistir?

Rôôô disse...

To procurando esse link loucamente.... Não encontro em lugar algum. =(

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