sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Avatar FiliPêra

Bully

 

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Quando crucifiquei Larry Clark pelo filmeco que foi Wassup Rockers, ainda não havia visto o seu melhor rebento. Kids pode ser mais importante e fundamental, Ken Park pode ser mais “chute nos bagos”, mas Bully deixa todos os outros filmes dele no chinelo. E isso não é (tão) fácil. Larry Clark é daqueles cineastas “ame ou odeie”. Na mesma proporção que tem fãs, ele coleciona gente que ojeriza toda a sua filmografia como o anti-cristo, dizendo que não passam de pornografia disfarçada de filme cult (Eu, particularmente, não sou uma coisa nem outra, mas estou mais para fã). Seu estilo é um dos mais fáceis de se identificar, cheio de desleixos técnicos, câmera na mão (tá na moda) e personagens adolescentes amalucados. Enfim, ele é um cineasta que, absolutamente, não liga para o que é dito acerca dele, e prossegue em sua jornada de descoberta da juventude perdida. O que ele faz muito bem, diga-se de passagem.

Bully não escapa da fórmula manjada dele, mas vai além. Sim, os mesmo adolescentes malucos, inconsequentes, usuários de drogas, que trepam mais que cachorros no cio; estão por lá. Mas desta vez o cineasta, ainda mais que em Ken Park, que ele lançaria um ano depois; vai fundo em quem SÃO os personagens, e não apenas no que eles fazem, e porque eles fazem. Dessa forma o filme se apresenta como algo coeso, com início, meio e fim (algo quase inédito nos filmes que vi dele), e não apenas um amontoado de cenas de sexo, intercaladas por usos de drogas (Wassup nem isso teve). E o trunfo maior do cineasta vem a seguir: dessa vez Larry trabalha com uma história real, com pessoas reais e situações reais (devidamente dramatizadas, claro), o que acaba por afastar um pouco as críticas ao seu modo de retratar os jovens, afinal ele está apenas reproduzindo o que aconteceu.

Marty Puccio (Brad Renfro) tem como amigo Bobby Kent (Nick Stahl). A relação de “amizade” dos dois é a mais estranha possível. Bobby agride Marty sempre que tem vontade, tanto verbal, como fisicamente, chegando ao ponto de humilha-lo em público. Bobby é o filhinho-de-papai mimado e reprimido (sexual, ou homo afetado, se preferir) típico. Sempre que tem a oportunidade trata de surrar os outros, achando que o fato de estar uma posição social acima, lhe dá carta branca para fazer isso (daí o nome do filme, bully, que quer dizer “valentão”). Já Marty é surfista, não terminou o colégio, tem emprego graças a Bobby e não vê perspectivas de mudança na sua vida.

 

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Marty e Lisa: plano para matar…

 

Tudo muda nessa relação com a chegada de Lisa Connelly, que vê em Marty o príncipe encantado da sua vida. Tentando ajudar seu namorado (de quem descobre-se grávida), ela trama a morte de Bobby. É nesse momento que o filme cresce. Com o (arremedo de) plano que Lisa arma, um universo de personagens bizarros (mas verdadeiros) começa a orbitar em volta do triângulo Bobby-Marty-Lisa. Tanto a amiga dela Aly, quanto a amiga de Aly, Heather, são as conhecidas descerebradas. Vivem para usar drogas e fazer sexo. Junta-se a ela o namorado de Aly, Donny (Michael Pitt) e o “Crazy Motherfucker (esse não tem nome no filme)”, que vai ser uma espécie de líder matador para orienta-los na execução do plano.

Ao mostrar o planejamento da morte de Bobby, e induzir quem está assistindo ao desenrolar da trama a odia-lo, Larry mostra ainda mais a banalidade da juventude, que discute mortes em mesas de lanchonete e não liga para as consequências de matar. E os atores que povoam o filme são de primeira. O destaque vai para Nick Stahl, que faz de Bobby o personagem odiável que ele deve ser, não deixando NADA para se admirar nele. Os outros também não fazem feio e dão ao filme a tridimensionalidade que Larry desejava.

 

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Bobby: O bully filho-da-mãe…

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Juventude transviada

 

Na técnica Bully também é o melhor filme de Larry, com planos engenhosos e movimentos bem feitos. A tensão que ele cria na cena do assassinato (não é spoiler) é de causar inveja a muito suspense por aí, deixando um clima tenso no ar, até mesmo com a inclusão de efeitos sonoros bizarros, como músicas ao contrário. O único ponto baixo vai para a trilha sonora, repetitiva e cansativa, abusando de raps e não optando pela diversificação (creio que essa reclamação se deva mais por gosto pessoal do que propriamente por uma falha do cineasta).

E o final de Bully é a coroação e uma mostra do que Larry Clark é capaz de mostrar, mesmo que sem muito esforço. Não, o filme não termina num ménage à trois gratuito (não reclamei), mas com um chute no estômago bem colocado, ao mostrar que tudo tem consequências, e das piores (e os jovens mostrados por ele parecem não ligar para elas). É uma pena que parece que ele perdeu a mão…

 

Bully (EUA, França 2001)

Diretor: Larry Clark

Duração: 113 min

Nota: 8,5

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